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Crónicas da vida real: envelhecer em solidão (conclusão)

“A solidão e isolamento social dos mais velhos leva a sofrimento, desinteresse pela vida, e estados depressivos que podem ser fatais.”

 

O filho do senhor Mário estava ocupadíssimo no escritório. Não que lhe não tivesse ocorrido algumas vezes no pensamento o pai.

Dizer que o filho do senhor Mário era um mau filho seria uma injustiça difícil de perdoar.

Tal como nesta manhã que lhe irá ficar na memória por muitos e longos anos mesmo sem ele ainda o saber ou sequer imaginar, muitas foram outras as manhãs, tão similares a esta, em que misturado com os afazeres do trabalho sempre tão intenso, lhe veio ao pensamento várias vezes ao dia, o pai e a sua situação. Aquela mania de não querer deixar a casa onde sempre viveu, onde as recordações se espalham por tudo quanto é canto…

Mas a vida do mais comum dos mortais, é assim. Absorve-o nos afazeres do dia-a-dia, nos compromissos que têm que ser cumpridos. E esses compromissos, os afazeres que deles são consequência, incluindo o trabalho e o salário, são como uma bola de neve desamparada montanha a baixo. À medida que desce vai aumentando de volume. A roda da vida não para…até que a morte lhe ponha um travão.

Depois, nessa manhã de penosa lembrança no futuro, o filho do senhor Mário ouviu o seu nome ser chamado nos altifalantes da companhia. Pedia-se-lhe que atendesse urgentemente o telefone.

O coração do filho do senhor Mário foi…bum, bum, bum.

A seguir o filho do senhor Mário… “Estou sim…?” e fez-se um breve silêncio para que logo a seguir ele dissesse, “Sou sim senhor…”

E a partir dai o silêncio foi pesado. Um nó que se começou a formar na garganta e a crescer cada vez mais. Um marejar nos olhos. Uma fraqueza nos braços e nas pernas, um vazio dentro de si. Uma tontura que quase o derrubou. E por momentos a vida ficou suspensa. Como se ela mesma estivesse a dar ao filho do senhor Mário uma oportunidade de descobrir por breves instantes qual o verdadeiro sentido de a viver.

Breves devaneios que não tarda e iriam passar, Tudo ha de voltar ao normal. Depois do período de chorar a morte do pai, a dor continuará dentro de si, perseguindo-o por muito tempo, mas depressa a vida e os compromissos que com ela, consciente ou inconscientemente, assumimos, tratará do resto.

Quando o filho do senhor Mário abriu a porta da casa do pai, por momentos desejou ardentemente que tudo não tivesse passado de um sonho. O telefonema, as palavras que viajaram pela linha do telefone diretamente aos seus ouvidos, as emoções a elas ligadas. Um sonho. Um sonho mau. Era preciso retificar umas coisas, ponderar melhor sobre elas, dar-lhes uma solução bem melhor do que aquela que até aí tinham tido…um sonho…, mas…aquele desejo forte dentro de si, não foi forte o suficiente para que se concretizasse.

Primeiro abriu a porta devagarinho, como que a medo. Ou talvez não medo. Apreensão. Depois…à medida que ia empurrando a porta seguindo-a com a cabeça que assim que teve espaço suficiente a transpôs, espreitando, largou a maçaneta e deixou que a porta se escaqueirasse à sua frente. Lá estava a cadeira do pai. Vazia.

O filho do senhor Mário ficou por momentos a olhar a cadeira fixamente. Mas não a via. Via muitas outras coisas, mas como usava a mente em vez dos olhos, não a via.

Ali ficou pensativo, longe…a viver outros momentos, de outros tempos, uns que haviam sido reais, outros que gostaria de haver sido realidade.

Quando finalmente veio a si, reparou que ao lado da cadeira de encosto, no chão, entre a cadeira e a mesa, estava um envelope.

O filho do senhor Mário pegou nele, abriu-o e tirou de dentro uma carta. Era a letra do pai. Sem tirar os olhos da carta, vagarosamente sentou-se na cadeira de encosto.

Leu…

Meu filho, não há nada que dure para sempre.

Provavelmente essa será a única certeza que temos. A vida é cheia de momentos limitados pelo tempo que duram desde que surgem. E mesmo assim continuamos a não aproveitar esses momentos da maneira que devíamos. Ou porque achamos que as alegrias e os bons momentos duram para sempre, ou porque nos desesperamos nas tristezas e nos momentos mais difíceis, achando que nunca acabam.

Somos parte integrante do universo, assim como um braço, ou uma perna, ou qualquer outro membro do nosso corpo, é parte de nós. E o universo tem essa magica inexplicável, por vezes incompreensível, de se equilibrar a si mesmo. Equilibra-se com o infinito e com o oposto de tudo o que existe. Nascer morrer, bom mau, frio calor, noite dia, tristeza alegria. E por aí adiante. E é esse oposto que limita e ao mesmo tempo equilibra o próprio universo em si, e nós como parte integrante dele podemos acreditar que nem as alegrias e os bons momentos duram para sempre, nem as tristezas e os maus momentos vem para ficar. Nessa perspetiva, acredito que nem a morte vem para ficar. Talvez ela seja apenas a porta de entrada que o universo nos oferece para o início de uma outra missão.

Cabe-nos a nós, enquanto por cá andamos neste mundo, aprender a tirar o proveito que os momentos limitados ao longo da nossa vida, nos proporciona. Cabe-nos a nós estar atentos ao que realmente nos importa, ao que realmente é significativo para o tempo limitado que temos nesta vida, para que, chegados ao fim do caminho não lamentemos mais as coisas que não fizemos, do que aquelas que alcançamos.

Por isso o conselho que te dou, é que valorizes cada momento da tua vida. Que não fiques a viver no passado, e muito menos que antecipes o futuro. O passado passou. Faz parte do tempo limitado que lhe coube. Quanto ao futuro, nada te garante que o vás viver. Por isso, vive o presente e fá-lo bonito, maravilhoso, belo. Nunca te esqueças que o que de mais belo e valioso uma pessoa contém, não se pode ver nem tocar, mas sim sentir com o coração.

Quanto à cadeira de encosto…sempre tiveste razão. É de facto confortável. Não te desfaças dela. Guarda-a. Cuida dela. Estima-a, pois um dia que possas precisar dela, se seguires o meu conselho, ao te sentares nela, não será para envelheceres confortavelmente em solidão, mas sim para descansares merecidamente de uma vida cheia e feliz, para celebrares essa mesma vida, porque se é certo que só se vive uma vez, se essa vez for bem vivida, é suficiente.

E se não seguires o meu conselho, se a vida te absorver nos truques em que a tua própria mente te irá ludibriar, então também tu precisarás da cadeira de encosto para que nela envelheças confortavelmente em solidão. E solidão meu filho… é dor que mata cruel e desesperadamente num grito que o silêncio abafa.

Do teu pai que muito te ama“.

 

Nota do autor: Crónicas da vida real é inspirado em histórias verídicas, apenas com nomes fictícios. Esta história foi dividida em 3 partes, e como é obvio, faz mais sentido se for lida desde o princípio.

A Guarda Nacional Republicana (GNR) publicou em comunicado, “Censos Sénior 2017” que mais de 45 mil idosos foram sinalizados por viverem sozinhos ou isolados, e dados do ano que passou revelam que cerca de 40% da população portuguesa com mais de 65 anos se encontra sozinha durante 8 horas ou mais por dia. A solidão e isolamento social dos mais velhos leva a sofrimento, desinteresse pela vida, e estados depressivos que podem ser fatais.