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Crónicas nada-fantásticas sobre o Mundial (5)

© REUTERS/Pilar Olivares

Nobre leitora e insigne leitor, muito bem-vindo amais uma crónica nada-fantástica sobre o Mundial Cai-Caida Rússia, competição onde vencem os jogadores que mais tempo passam no chão a rebolar que nem bolas. A este distúrbio da personalidade, que leva os jogadores a pensar que são bolas, dá-se o nome de “Síndrome de Neymar”. Assim, além do vídeo-árbitro, o Mundial de Futebol da Rússia estreou também o vídeo-psicanalista de modo a permitir examinar com minúcia o comportamento dos atletas e ajudar o juiz da partida a decidir se estamos perante um caso de disciplina ou perante um caso de demência mental.

França x Argentina: Didier Deschamps tornou-se no seleccionador com mais jogos ao serviço da selecção francesa (80 jogos) ultrapassando Raymond Domenech, que treinou os gauleses em 2006, quando estes disputaram a final do torneio, perdendo para a Itália de Marcelo Lippi. A Argentina é a primeira selecção a marcar 3 golos e aperder num Mundial desde 1986, quando a então União Soviética perdeu também 4-3 com a Bélgica. Entretanto o Lionel (Sissinho para os amigos), na vã tentativa de amenizar as mágoas e a tristeza do povo argentino já veio a Lisboa pedir a Madonna que cante “Don’t Cry For Me Argentina”…

Uruguai x Portugal: Em vésperas de um jogo decisivo virem anunciar que a pastelaria Suíça vai encerrar só podia dar mau resultado. E deu! Pôs os principais titulares da nossa selecção nervosos e a pensar “Então mas agora onde é que eu vou guardar os meus milhões?”. Cavani foi mais prático e guardou as suas duas bolas bem no fundo das redes de Rui Patrício. Fernando Santos bem que tinha avisado antes da partida: “Passamos aos quartos Sóchidermos cabo do Uruguai”, ao que Pepe respondeu: “Se é para dar cabo então pode contar comigo, Mister!”. Não contaram foi com Cavani que cavou a sepultura aos portugueses e os enviou de regresso a casa no meio de dez avé-marias e vinte pai-nossos rezados pelo seleccionadorcampeão europeu.

Espanha x RússiaPela quarta vez, Espanha é derrotada pela anfitriã num Mundial, não tendo nenhuma vitória deste tipo a seu favor. A primeira vez, em 1934, com a Itália, com golo de Giuseppe Meazza, jogador que dá nome ao mais famoso estádio de Milão; a segunda vez em 1950, contra o Brasil, e a terceira vez em 2002, contra a Coreia do Sul, jogo no qual Fernando Hierroactualseleccionador espanhol, estava presente. A selecção russa passou pela primeira vez da fase de grupos e chegou aos quartos-de-final, igualando, por exemplo, a Ucrânia de Shevchenko, que caiu nos quartos-de-final, em 2006, contra a, posteriormente campeã, Itália. E não deixa de ser irónico que a Rússia passe aos quartos-de-final devido a uma defesa monumental de Akinfeev com o pé ou não se tratasse de penáltis: de pé para pé… 

Croácia x Dinamarcapela segunda vez na história, a Croácia alcançou os quartos-de-final de um Mundial, repetindo o feito de 1998, onde alcançou um histórico terceiro lugar. Danijel Subasic, guardião croata, celebrou homenageando um colega de equipa falecido em 2008, quando ambos jogavam no clube do país, Zadar. O colega, chamado Hrvoje Custic, faleceu após embater com uma parede colocada a 2 metros da linha lateral. Subasic já foi criticado pela FIFA, que acha que os jogadores devem limitar-se a jogar futebol e, portanto, não expressar opiniões. Claro que se em causa estivesse uma homenagem a algum político ou dirigente desportivo corrupto, aí de certeza que haveria luz verde por parte da FIFA para toda e qualquer homenagem. O Croácia x Dinamarca contribuiu para aumentar a autoestima de todos os homens com o “coiso” pequeno, já que veio provar que o talento tem mais importância do que o tamanho.

Brasil x México: foi a melhor exibição de Neymarneste Mundial, quer em posição vertical quer horizontal.De facto, Neymar é uma espécie de banda larga de perfuração de caminhos até à baliza adversária porque a sua técnica de abertura de caminho em cilindro que rola rola sem parar é de génio. O único senão é que para activar o modo “cilindro”, Neymar tem que ser tocado levemente por algum adversário. Quanto ao México, o melhor mesmo é ir ao bruxo de Fafe para ver se quebra o enguiço de não conseguir avançar além dos oitavos de final… e isto já em seis Mundiais seguidinhos, sem contar com a Rússia, claro, que são contas de outra matrioska.

Bélgica x Japãoa última vez que uma equipa recuperou de uma diferença de dois ou mais golos numjogo de ‘mata-mata’ de um Mundial foi em 1966, quando Eusébio inspirou a selecção portuguesa, numa vitória por 5-3 frente à Coreia do Norte, na qual a ‘Selecção das Quinas’ esteve a perder por 3 golos. Já sobre o Japão, à medida que ouvia o relato que os comentadores faziam do jogo, olhava para o ecrã e parecia que só via “Pikachus” e os restantes Pokémons a correrem de um lado para o outro a tentarem capturarem a bola para ganharem pontos e pensava: “Isto dos Pikachus e dos Pokémons só pode ter sido uma adaptação das admiráveis e surreais obras de Picasso”… 

Suécia x Suíçaa única reedição possível de uma final seria Brasil x Suécia, recriando assim a final de 1958, na Suécia, que alguns acham nunca ter acontecido, como é visível pelo filme ‘Conspiracy 58′. Pelé, que marcou 2 golos nessa final, ainda com 17 anos, tornou-se no primeiro ‘teenager’ a marcar mais que um golo num jogo a eliminar no Mundial, recorde que foi igualado por KylianMbappé, contra a Argentina, este com 19 anos. E se atentarmos bem, uma final Brasil x Suécia terá todos os ingredientes para ser um grande espectáculo: o ataque do Brasil a desmontar a defesa Suíça com recurso à chave em espiral Neymar, que roda, roda e roda sem parar…

Colômbia x Inglaterrapela segunda vez na história de um torneio mundial, Inglaterra venceu através das marcas de grande penalidade, algo que só aconteceu frente à Espanha, em 1996, tendo sido, curiosamente, Fernando Hierro, já mencionado, e Miguel Ángel Nadal, ex-jogador do Barcelona e tio do tenista Rafael Nadal, a falharem os penaltis. Em vez de se concentrarem na hora decisiva, os atletas devem pensar em guloseimas. Que o diga o sobrinho de Miguel Ángel Nadal que adquiriu a Pastelaria Suíça no Rossio, parafraseando o grande Herman José: “Eu é mais bolos!” 

Em jeito de conclusão dos oitavos de final, e como consequência da eliminação precoce de Portugal do Mundial da Rússia, proponho que a Federação Portuguesa de Futebol contrate o actual Ministro da Defesa, José Azeredo Lopes, para seleccionador nacional. Assim, independentemente de sermos ou não eliminados da competição, quando a nossa selecção chegasse a Lisboa, teríamos o seguinte diálogo:

Presidente da República: “Meu Seleccionador, onde está a Taça do Mundial?”

Seleccionador Nacional: “Senhor Presidente, acho que a roubaram!”

(Esta crónica foi escrita em parceria com o meu filho Diogo Luís, estudante na Universidade do Porto)