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Indigência Poética (ou Autodiagnóstico Psicopoético do Autor Numa Noite de Náusea)

Quão fútil me parece por vezes a vida
que à minha volta construo
quantas horas gastas a não escrever
de que vale passar os dias a desejar
escrever e não o fazer
fugir do lápis intimidado pelo traço –
que temo indelével –
da mediocridade.
Escrever para quê? Porquê?
A escrita em mim já não é vida
nem fé nem resistência
nem convicção nem onanismo
sacro nem pagão
nem filosofia nem arte
nem amor nem sexo
nem nada.
(E eu a ambicionar que fosse
a minha espinha atlântica,
o meu nexo, a minha travessia
quântica para além das eras…)
Escrever sobre não escrever
para escrever sobre essa lamentável
astenia literária que se manifesta
por sintomas crónicos de insuficiência
de singularidade e de carência notória
e inveterada de talento é estúpido,
e esta tinta tão somente um prodigioso
desperdício neurótico.

JLC