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Opinião

Segurem-me senão eu mato-o

© Pixabay

Na velha rábula, o tratante que agarra o vizinho mais à mão e grita “segurem-me senão eu mato-o”, desespera realmente por saber que no que de si dependa, fugirá bem rapidinho. E por isso encena. O valentão é um fanfarrão. Na política disfarça-se menos. Mas se há certeza é que, como na rábula, nenhum arrufo ensaiado na “geringonça” deverá ser coisa para levar muito a sério.

Quando o Governo anunciou querer vender 75% do Novo Banco – supostamente o banco bom, que valeria alguma coisa, expurgado da toxicidade armazenada num banco mau – à Lone Star, o BE falou grosso contra a compradora, “fundo abutre”, que o PCP acusou de ter “natureza especulativa, idoneidade duvidosa e estar envolvida em processos judiciais”.

Constritos pela manutenção de 25% do capital apenas e na devida proporção, dos prejuízos futuros na esfera do Estado, disseram que fariam “tudo” para travar o negócio. Afinal, a nacionalização da Banca está para quem vive na crença das virtudes revolucionárias da luta de classes como a gasolina para um motor de combustão.

Azar nítido, diferentemente da rábula, na política ninguém segurou o BE e o PCP. Amigo da onça, o PS ficou no sítio. Foi quanto bastou para se perceber que o que Catarina Martins e Jerónimo de Sousa quiseram mesmo dizer foi “segurem-nos, senão fica tudo na mesma”. Na Assembleia da República, “tudo” foi um debate de urgência pedido pelo BE, que é como quem diz conversa e um projeto de resolução apresentado pelo PCP, que não vincula ninguém. E foi assim, recorde-se, depois da CGD, tendo o Estado como acionista, representado por um Governo socialista minoritário, que só se aguenta no poder porque o BE e o PCP querem, se ter financiado em 500 milhões de euros, com recurso a outros “fundos abutres”, à taxa de 10,75 % e com impostos pagos no Luxemburgo.

Do mesmo modo, o BE e o PCP repudiaram o Programa de Estabilidade com que o Governo imporá cortes de mais de 1100 milhões de euros nas despesas até 2019. Catarina Martins chamou a Imprensa para lamentar documentos que “parecem obedecer mais a Bruxelas do que continuar o caminho para cumprir as soluções conjuntas”. Argumentou que “o país precisa de mais médicos e mais enfermeiros e não menos, de mais professores e professoras e não menos, de mais pessoal nas escolas e não menos”. O deputado comunista Paulo Sá denunciou “a sujeição às imposições da União Europeia”. Depois, chamados a votar, não impediram coisa nenhuma.

Explicou a coordenadora do BE que não quiseram “criar problemas ao Governo”. As coisas que o poder faz. Valentes.