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Opinião

A TAP perdeu o brio

A TAP, na sua nova fase pós-privatização, já não é o que era. Perdeu o brio e, com isso, deixou que a imagem do nosso país ficasse a perder. Aquela companhia de que todos nos orgulhávamos, que tendenciosamente dizíamos ser uma das melhores do mundo, que era um símbolo para as comunidades portuguesas, está irreconhecível.

O pior é que, hoje, já não conseguimos perceber o que é a Transportadora Aérea Nacional, que leva estampada as cores da bandeira. Transformou-se numa espécie de marca branca da aviação comercial, numa low cost com preços absurdos. Esta já não é a minha TAP, por mais que isso me custe a admitir. Até à privatização, fazia mais de 90% das minhas viagens com a companhia nacional. Atualmente, os preços subiram tanto que se fizer 30% já é muito.

O pior é que, tendo aumentado os preços, o serviço não melhorou e a imagem também não. Bem pelo contrário, principalmente porque nivelou por baixo, mesmo que a companhia esteja sempre a publicitar que ganhou este ou aquele prémio. Ou seja, a TAP adotou nesta sua nova fase o pior das companhias low cost, como a limitação de malas, bagagens debaixo do assento a causar desconforto, refeições de má qualidade, falta de espaço para arrumos, assédio constante para fazer o upgrade do bilhete pagando mais.

A juntar a este downgrade, há uma prática muito constrangedora, que é a criação das várias classes de passageiros. As low cost só têm uma classe de passageiros. As companhias de bandeira têm a classe executiva e a económica, e a TAP, além da executiva, tem pelo menos quatro categorias em económica. Quanto mais rígidas forem as condições da tarifa, mais baixos os preços, pelo menos na teoria. E, assim, temos os passageiros de primeira classe, de segunda, de terceira e de quarta classe, que são os que vão no fim do avião, mais apertados e sem regalias, a fazer lembrar os tempos em que os emigrantes eram enfiados na última das classes de passageiros quando faziam as viagens transatlânticas de barco para o Brasil.

Houve tempos em que a qualidade das refeições a bordo era um fator distintivo da companhia e os passageiros que viajavam em executiva tinham sempre direito a refeições concebidas por alguns chefs conceituados, o que ainda acontecerá em várias rotas. E isto é importante porque a excelência da gastronomia portuguesa, altamente apreciada pelos estrangeiros que nos visitam, é um dos fatores de valorização da imagem do país, a par da generosidade no acolhimento.

Ora, este brio que a TAP outrora tinha parece ter morrido algures num gabinete qualquer da administração da companhia, que decidiu substituir as refeições em classe executiva em algumas rotas para a Europa por um voucher de 50 euros, acompanhado de uma sandes e um queque em embalagem de plástico e um Compal. O que acontece, pelo menos, para os voos que saem de Lisboa com destino a Milão, Frankfurt, Roma ou Paris, como esclareceu, desfazendo-se em desculpas, uma hospedeira num voo que recentemente fiz. Não se tratava, portanto, de nenhum problema pontual de catering, mas sim de uma decisão da companhia de adotar estas práticas pindéricas. O incómodo e a surpresa eram evidentes no rosto dos passageiros de várias nacionalidades que iam naquele voo.

É que, quando os passageiros pagam um preço de classe executiva, também estão a pensar na refeição que vão ter. Se não a recebem e ninguém os avisa antes de comprarem o bilhete, então os passageiros estão a ser enganados e os seus direitos espezinhados. Nem sequer os argumentos de natureza financeira justificam que se degrade tanto um serviço que está diretamente relacionado com a imagem do país.

Acresce outro aspeto algo surreal, que é a possibilidade de, em qualquer voo, a tripulação poder decidir se fornece ou não as refeições se não houver membros suficientes, seja em económica ou executiva, situação igualmente inacreditável que não abona nada a favor da imagem e qualidade do serviço prestado.

É nisto que dão as privatizações. Piora o serviço e aumenta a indiferença perante a bandeira que representam. Pede-se à TAP que cuide, como é sua obrigação, da imagem do país e, sobretudo, que aplique o bom senso nas suas políticas comerciais para podermos ter de volta aquela TAP de que todos nos orgulhávamos.