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Um destes dias

um destes dias
e será mais cedo do que a tua imaginação supõe
um destes dias vou devastar o pomar do meu coração
vastidão onde ainda te trago fruto a latejar
vou fulminar todos os manuscritos do amor
que insones ainda restam na biblioteca da minha memória
vou cegar o meu sangue
sulfatar os meus olhos com escuridão
tapar os meus ouvidos com betume
envenenar todas as músicas que ouvíamos juntos
vou pulverizar todas as prendas que me deste
trucidar com muito esmero todas as tuas fotografias
fuzilar este inabalável desejo do teu corpo
arrasar o quadro eléctrico da paixão
vou estripar a maldita parcela do cérebro que insiste ainda em pensar em ti
haverei de incinerá-la e verter as cinzas na região mais quente do sol
um destes dias vou esmigalhar à machadada a cama onde tantas vezes ouvi da tua boca
que tínhamos uma química fulgurante
que eu era o amor da tua vida
que irias ficar comigo para sempre
um destes dias
e será mais cedo do que o teu desdém calcula
um destes dias vou esfarelar a centenária tília onde gravámos os nossos nomes
vou mandar bombardear o lugar onde nos conhecemos
vou espatifar o miradouro na cumeeira do meus sonhos
lugar donde eu nos via tantas vezes de mãos dadas passearmos pelos jardins de Alhambra
um destes dias vou barrar todos os caminhos que levam a ti
vou pedir à Chanel que deixe de fabricar o teu perfume
vou deportar para os confins da lonjura tudo o que tenha a cor dos teus olhos
de tudo vou fazer para afundar aquela constelação a que chamavas nossa
vou degolar todos os fantasmas que ousarem falar de ti
vou mandar de volta para a sepultura o Neruda esse poeta cujos versos tanto gostavas de sorver e citar
vou bochechar lava várias vezes ao dia para aniquilar o vinho dos teus beijos que crepita ainda na minha boca inquieta
a lua? nem te conto o que tenho preparado para ela
um destes dias vou encontrar maneira de extinguir da face da terra a tua flor preferida
vou começar a contar para a minha tristeza alegrias que tive com mulheres antes de ti
vou deixar de beber álcool
não vá dar de cara contigo nalgum beco da saudade
vou todos os dias inventar defeitos teus que bem sonantes direi à minha ira
um destes dias vou inventar um potente fármaco para esquecer-te completamente
de tudo vou fazer para ficar amnésico
vou aperfeiçoar a amnésia desenvolver novos métodos para torná-la mais dinâmica e eficiente
vou afeiçoar-me à ideia de que morreste violentamente
só ainda não sei como farei com o teu nome
e como impedir-te de entrares nos meus sonhos
mas acredito que alguma solução haverei de encontrar
um destes dias vou fazer tudo isto
isto e muito mais e depois felicíssimo emigrar para a Patagónia
lá haverei de morrer
contigo a mirrares numa catacumba do supino esquecimento

só assim e talvez só assim consiga esquecer-te

dm