De que está à procura ?

franca
Lisboa
Porto
Paris, França
Colunistas

A morte de um amigo

Um dos mais espantosos filósofos medievais, Santo Agostinho, fez uma profunda reflexão sobre a morte, mas também sobre a nossa cegueira perante a vida. A angústia pela morte de Nebrídio, o seu melhor amigo, levou-o a recolher-se ao silêncio em busca de paz. Na sua obra “Confissões”, longe de nos aquietar, Santo Agostinho traz-nos a pergunta que não aguarda resposta, porque por cada pergunta feita há um sistema de respostas que levanta mais dúvidas. O poder da pergunta é o da criação de problemas que tornam o mundo muito mais admirável, na estranheza do senso comum.

Inconsolável pela tristeza do adeus ao amigo, o autor mostra-nos que mais não somos do que morte adiada, mostrando que o homem transporta, no espaço e no tempo, a sua própria mortalidade. O mesmo é dizer, carrega o seu estado de queda.

Pela morte, nasce em nós a inquietação. Que apenas dura um instante, ainda que a inquietação seja própria do mundo. Somos uma finitude que vive como eternidade, somos um limite que se pressupõe do contínuo e do infinito. A ideia de Mortalidade/ Queda/ Inquietação é um fenómeno humano universal, que é próprio da nossa condição, mas não forçosamente necessário. É-nos completamente impossível viver na opressão contínua da angústia. Ou seja, entre a realidade e a possibilidade, vivemos como se o céu fosse o nosso limite. Na verdade, o nosso limite é o que temos mais perto de nós, o corpo. Assim, a ideia de limitação não é assumida como pertence de cada um de nós, mas dos outros. A inquietação abala, mas não mata a estrutura ontológica de um ser – que é, também, não ser. A nível psicológico, a inquietação é um estado fisiológico, pois é próprio do homem ser ignorante em determinadas coisas (Agostinho, Confissões, Livro IV, n.º 7). Na verdade, sabemos muito pouco. Grande parte das vezes somos menos do que sabemos. Na vida e na morte, no dia e na noite, no amor e no ódio. Uma vez, perguntava eu a um dos meus alunos: se o amor passasse a teu lado, saberias reconhecê-lo? De tão básica que é a pergunta, poderíamos transportá-la para as coisas de todos os espaços e de todos os tempos.

Sobre a morte de Nebrídio, diz-nos Santo Agostinho: “Tudo o que via era morte e odiei todas as coisas (…). Constitui para mim mesmo um problema. Eu próprio tornei-me uma grande questão.” É o momento da perplexidade que faz nascer a inquietação. Ao fim e ao cabo, é a pergunta o motivo das coisas. No entanto, a noção de inquietação é imediata. Nós não a suportamos muito tempo na nossa alma.

A morte de alguém implica a ruína de um mundo. Dá-se uma modificação do mundo e há um deserto emocional pelas coisas. Esta perturbação do mundo é o primeiro momento do questionamento. Depois, o problema transfere-se para o sujeito, que se torna dúvida para si próprio. O terceiro momento é aquele em que Santo Agostinho tenta localizar o acontecimento que o afectou e interroga a sua alma sobre o porquê de ter “a alma em ruína”. O mundo altera-se. A constituição do problema em si mesmo e originariamente este desassossego é irredutível a si mesmo.

Isto não dura mais que um “instante”, porque somos os tais “homens de palha” de que falava T.S. Elliot. Somos espectadores da vida. Sujeitos passivos que vêem as coisas como sendo aquilo que são. Não há espaço em nós para as percebermos num sentido individual. São os sentidos das massas, em que o estado óbvio do mundo é ele ser mudo. As coisas são como são. Adequadas. Normais e lógicas. A relação que temos com a vida tem uma certa significação, isto é, a percepção normal da vida é a sua própria insignificância. Os abalos da vida tornam-nos indiferentes. As coisas passam e vivemos como sonâmbulos. Adormecidos. Mitigados. Entorpecidos. Mas a morte, dos nossos em particular, torna-nos peso.

Por isso, a tendência é evocar a memória. A sua dormência. Com a morte dá-se a ruína da alma. No entanto, há mortes que, não sendo físicas, só podem acontecer por força da memória. Cair no esquecimento é deixar de existir. Por vezes, é esta a única forma de compreender a morte de um amigo.