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“Bring the boys back home”

É um lugar comum dizer que as crises não afectam todos da mesma forma. Temos ouvido isso vezes sem conta como um disco riscado. Mas, tal como disco riscado, a menos que uma mão providente faça avançar a agulha, não se passa disso. Pouco ou nada se faz para que a história não fique ali, repetindo-se 33 vezes por minuto.

Em 1979 os Pink Floyd lançavam o álbum The Wall, uma obra prima na forma de uma Ópera Rock. Este opus de Waters, Gilmour, Mason e Wright, conta as várias histórias da vida de Pinky, um rapaz britânico que perdeu o pai na Segunda Guerra Mundial – uma das mortes que ainda houve depois de assinado o armistício, no hiato de tempo que demorou a ordem de cessar fogo a chegar à linha da frente.

Portugal é um país de gente que anda fora. Temos, estimava a ONU em 2019, mais de dois milhões e meio dos nossos a morar por esse mundo fora, dos quais um milhão e meio na Europa. Longe de ser constituído por uma população fixa, o fenómeno migratório é uma constante. Desde 2011 saíram de Portugal 850 mil de pessoas, das quais meio milhão de forma temporária (a um ritmo anual que variou entre os 43 de 2012, os 85 mil de 2014, e os 50 mil de 2018). Destes emigrantes temporários, muitos fazem épocas de trabalho “lá fora” para assim compor o orçamento familiar.

Lá por onde andam executam trabalhos temporários, em grande parte às mãos de agências de trabalho temporário que lhes assinam contractos de trabalho à semana e por vezes mesmo ao dia. Tal qual as praças de jorna do Alentejo até que essa famosa madrugada de Abril os libertou desse aleatoriedade de aposição da canga. Isso agora é lá fora.

Muitos deles, emigrados há poucos meses, expirados os contactos de trabalho semanais e sem um mínimo de cotizações sociais (descontos), foram excluídos das medidas de desemprego técnico que foram sendo instauradas pelos países de destino. Sem contracto de trabalho vigente não têm direito ao “desemprego técnico”, sem descontos os suficientes não têm direito ao normal subsídio de desemprego. Estão assim entregues à sua sorte, em condições muitas das vezes tão precárias como as relações laborais que tinham, alojados em pequenos quartos onde são obrigados a passar a maioria do tempo em consequência das imposições ao limite de circulação de pessoas. Sem dinheiro, sem liberdade de movimentos, e, gradualmente, alguns, sem o que comer.

Nesse trabalho dos Pink Floyd, no início da segunda parte, há uma música, cuja letra não tem mais que quatro versos, que repete 3 vezes “Bring the boys back home” (em tradução livre: tragam os rapazes para casa). Entremeia esta repetição ao 3º verso com “Don’t leave the children on their own, no, no” (não deixem as crianças entregues a si mesmas, não, não). Sem outra especificação, e tendo em conta o contexto da obra, estas crianças podem tanto ser os soldados na frente de batalha como os seus filhos deixados para trás.

O que Waters e a gangue pedem nestes versos é que o país não se esqueça dos seus, daqueles que se fizeram ao mundo para garantir uma vida melhor.

O que eu peço aqui aos governantes do meu País é que não se esqueçam daqueles que por esse mundo fora, muitos deles aqui tão perto nesta queria Europa de helénicas formas, como a canta o Fausto. É necessário pôr em marcha mecanismos de repatriamento desses filhos de Portugal para que problemas mais graves não se levantem nesse hiato entre o declarar dos estados de emergência e o “fim das hostilidades” ao monárquico vírus que enfrentamos.

(A foto que acompanha este texto é meramente ilustrativa. Faz parte da colecção de Paulo Lobo.)

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