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Como era África antes de chegarem os portugueses?

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A obra “A Enxada e a Lança. África antes dos Portugueses”, do historiador brasileiro Alberto da Costa e Silva, autor distinguido em 2014 com o Prémio Camões, é publicado, em dois volumes, pela Imprensa Nacional (IN).

A obra foi publicada pela primeira vez em 1992, no Rio de Janeiro, e traça a história do continente africano desde a pré-história e termina em 1500, quando os europeus já ali instalaram as suas feitorias e faziam o seu comércio, nomeadamente de escravos.

Costa e Silva termina a obra antecipando esse confronto entre africanos e europeus, em particular os portugueses, os primeiros que aportaram às suas costas.

“Não se estranhará, por isso, que os congos, e talvez outros povos antes deles, confundissem com baleias as formas bojudas que se aproximavam de suas costas e traziam os portugueses”, antecipa o autor ao fechar a obra.

No prefácio à terceira edição brasileira da obra, reproduzido na edição da IN, o autor afirma que a elaborou sem concessões a teses da moda e a fantasias generosas. Mas com entusiasmo por “uma história que por tanto tempo foi negada, e na qual se desenham muitas das mais importantes raízes do que somos como povo”, remetendo para as evidências científicas que apontam que o Homo Sapiens surgiu em África há cerca de 195 mil anos.

A obra é sobre o que se convencionou referir como “África Negra”, os povos e etnias, técnicas agrícolas, de navegação, expressões religiosas e artísticas, reinos extintos, cidades desaparecidas, costumes e crenças, línguas e dialetos.

Este primeiro volume começa com os Australopitecos, ancestrais remotos dos atuais seres humanos que teriam vivido nas florestas e savanas do Quénia, da Etiópia e de regiões vizinhas milhões de anos atrás, e “o leitor é conduzido em uma jornada de muitos séculos que o levará ao encontro de culturas milenares, registadas em obras de arquitetura, cerâmica, escultura, pintura, tecelagem e outros artefactos, produzidos na maioria das vezes por autores anónimos e que hoje oferecem pistas esparsas de sua existência”, afirma o jornalista e escritor brasileiro Laurentino Gomes, na nota de apresentação.

“Algumas dessas civilizações são bem conhecidas, como a dos faraós egípcios, a dos valentes guerreiros núbios do alto e a dos judeus da Etiópia, supostamente uma das doze tribos perdidas nas savanas africanas e cuja prática religiosa se resume aos primeiros livros do Antigo Testamento. Outras são praticamente desconhecidas, como a dos artífices das misteriosas esculturas Nok, encontradas na franja do deserto do Saara, e a dos iorubás, nação estabelecida nos arredores de Ifé, atual Nigéria, cujos reis tinham poderes mágicos”, acrescenta Laurentino Gomes, referindo tratar-se de “uma jornada permeada de surpresas a cada virar de página”.

O diplomata e historiador Alberto da Costa e Silva de “olhar atento e inventivo”, é “hábil no domínio da língua portuguesa” e “constrói a sua narrativa em estilo preciso, às vezes delicado e poético, mas sempre repleto de autoridade e erudição, valendo-se de sua longa experiência de pesquisador”, escreve Laurentino Gomes referindo a experiência de Costa e Silva como diplomata, tendo sido embaixador de Brasília na República do Benim e na Nigéria, e visitou ainda 15 outros países.

Gomes não nega elogios a Costa e Silva que é “generoso com o leitor” e “escreve de forma didática e fácil de entender”, e realça o esforço da sua investigação, tendo recorrido “às mais variadas pistas e fontes, apelado para métodos de datação por rádio carbono e termoluminescência, genética, paleontologia e arqueologia, glotocronologia (ramo da linguística que procura estudar a separação temporal entre duas ou mais línguas aparentadas), além de preciosos relatos de viajantes que percorreram a África ao longo de muitos milénios”.

“O trabalho de pesquisa de Alberto da Costa e Silva ajuda a desmontar alguns mitos que a falta de conhecimento criou a respeito da África. O primeiro tende a interpretar o continente africano antes da chegada dos portugueses como um aglomerado de tribos primitivas que viviam na Idade da Pedra e mergulhadas em permanente estado de guerra. A realidade é bem diferente. Desde tempos imemoriais havia ali culturas bem organizadas que se relacionavam por uma extensa rede de comércio de produtos tão variados quanto sal, arroz, algodão, tecidos, rebanhos de gado, ouro, bronze e ferro”, chama à atenção Laurentino Gomes.

Na atual região de Brong-Ahafo, na República de Gana, arqueólogos encontraram, em 1975, vestígios de uma fundição de ferro datados da era cristã, contemporânea do Império Romano, no seu apogeu.

De referir ainda a extração de ouro, desde o século XIV – era em grande parte com ouro africano que a Europa satisfazia as suas necessidades de cunhagem de moeda.

Outro mito diz respeito à escravidão. Alberto da Costa e Silva demonstra que as marcas da escravidão já estavam presentes na história africana bem antes da chegada dos portugueses, no século XIV.

“O autor esgrime seu vasto conhecimento contra a atual tendência politicamente correta de suavizar as formas de escravidão anterior à chegada dos portugueses no século XIV ou mesmo negá-la de todo. Por essa corrente de pensamento, teriam sido os europeus os culpados pelo surgimento do abominável tráfico de seres humanos na África. Inegavelmente, a partir do século XVI os europeus sistematizaram e deram a esse comércio a escala que alcançou nos séculos seguintes. Estima-se que cerca de 10 milhões de seres humanos tenham sido capturados e trazidos para a América até meados do século XIX. Foi possivelmente a maior movimentação forçada de pessoas em toda a história da humanidade. Mas isso não significa que coube aos europeus inventar a mão de obra cativa no continente”, sublinha Laurentino Gomes.

No ano 2680 antes de Cristo, o faraó Esneferu do Egito organizou uma expedição à Núbia, da qual trouxe sete mil escravos.

Gomes refere que “após o advento do islamismo, entre os anos 800 e 1600, as exportações de escravos para o Médio Oriente, através do mar Vermelho, tenham somado 2,4 milhões de cativos”.

Sobre a sua obra, Costa e Silva escreveu, no prefácio à primeira edição, reproduzido nesta edição da IN: “Espero que este livro seja útil. Só o escrevi com o pensamento e o objetivo de entregar ao leitor um manual — simples, claro, direto, embora emotivamente interessado — que lhe servisse como introdução ao conhecimento da África. Por isso, este volume não contém, se tanto, uma dezena de ideias minhas: traz o que aprendi nos outros. Nele reuni e compendiei muitos e muitos dias de aplicadas leituras”.

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