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O homem-bolha

O Homem cria bolhas desde os primórdios. Consciente da sua nudez, vulgo vulnerabilidade, perante o mundo exterior, fero, perigoso, letal, inesperado seja face à fuça arreganhada de um animal feroz ou perante a força bruta da natureza, o Homem cria bolhas. Bolhas para morar, para viver, para se proteger, para se refugiar de tudo, e acaba por, por vezes, esconder-se mesmo de si próprio. Bolhas de folhas de videira, bolhas de arbusto, bolhas de penas de pássaros, bolhas de pele de animal, bolhas de lã, bolhas de lona, bolhas de cabedal, bolhas tribais, bolhas de seda e poliéster, de cortiça, de pedra, de barro, de cimento e tijolo, de ferro e aço, de vidro e plástico, bolhas de ar, bolhas de sabão, bolhas invisíveis, bolhas sociais, de classe, intocáveis, elitistas, bolhas oligárquicas, bolhas autárcicas que se autorreproduzem em cativeiro isolado, bolhais grupais, bolhas bairristas, clubistas, nacionalistas, bolhas que arvoram bandeira e cores como pinturas de guerra em focinho guerreador, bolhas imaginárias, oníricas, psicadélicas, virtuais, que se fumam e se esfumam, bolhas subconscientes, paranoicas, esquizofrénicas.

O homem vive nos seus vários tubos de ensaio – planeta, biosfera, prado, montanha, ilha, sistema social e político, meio laboral, núcleo familiar – a ensaiar-se a si mesmo. Até ao dia em que um elemento exterior se introduz na bolha e, por mais insignificante que seja, obriga o Homem a ver, a admitir, que continua nu, como no princípio, ele e a sua profunda fragilidade.

JLC03072020

 

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