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Portugal universal?

Os socialistas foram reconduzidos em Portugal e precisarão do Bloco de Esquerda ou de outras alianças para governar. Esperamos por quatro anos de estabilidade. Mais do que me regozijar pela vitória das esquerdas, fico preocupado, muito preocupado, com a entrada na Assembleia da República de um partido de extrema-direita.

Dizia-me uma amiga antropóloga e historiadora que em Portugal a extrema-direita não tem expressão parlamentar (não tinha até domingo!) porque os valores que esta defende são um contra-senso ao ser-se português. Explicava-me ela que o povo português é naturalmente acolhedor e hospitaleiro face ao estrangeiro, e gosta de pensar que o é de uma forma única e peculiar. Mais, vê como sendo essas as qualidades que fizeram dele um dos protagonistas da era das Descobertas, que exalta como seus – não é as descobertas é Os Descobrimentos Portugueses – expoente máximo da sua civilização, época de ouro em que uma pequena nação se tornou dona de metade do mundo, deu outros mundos ao mundo, dobrou cabos, descobriu continentes, misturou-se com outros povos e culturas, e fê-lo de forma tão aberta e tolerante que trouxe nos porões das caravelas especiarias e nas velas ventos de mudança de outras latitudes, e deixou igualmente um pouco de si nos quatros cantos do mundo e nos setes mares… Tantos superlativos.

É nisto que acredita o povo português, e esquece-se bastas vezes do reverso da medalha, minorando o nosso papel na propagação da escravatura, a violência contra os indígenas, o massacre de tribos inteiras, a espoliação das riquezas locais, só para citar estes exemplos do grande rol que havia aqui para listar.

A verdade é que o português vê-se como um povo com valores universais. E ainda bem que assim é, e sendo verdade ou não, faz-lhe bem ao ego e ao existir. Ora exaltar a portugalidade como sendo sinónimo de universalidade é contrário aos valores que a extrema-direita promove. Não podemos ser universais e nacionalistas. Era o que defendia essa minha amiga.

O mesmo titulavam em letras garrafais o Courrier International e o Libération há dias: que numa Europa em que cada vez mais países escorregavam perigosamente na direita extrema e reacionária, Portugal era a honrosa exceção, o jardim à beira-mar preservado dos espinhos do populismo e da extrema-direita.

Eu duvidava. Não tanto da natureza universalista do povo português, mas da espessura dessa tal universalidade na epiderme da nossa natureza humana face aos espinhos. É humano temer o forasteiro, desconfiar do que é estranho e estrangeiro, daquele que não é como nós? Ser humano, até é, mas… Mas a instrumentalização política e populista de culpar sempre a imigração de todos os males e problemas que existem num país mostra que muitos portugueses têm a pele fininha e são mais pequeninos do que universais. Vão nas soluções fáceis e nas respostas pré-fabricadas dos nacionalistas e não refletem sequer se as propostas são exequíveis. Eu desconfio sempre de quem me dá sopa e diz para eu confiar nos ingredientes, que não preciso conhecer.

O deputado eleito para a Assembleia da República pela extrema-direita diz que o seu partido será o maior do país daqui a oito anos. Os portugueses têm quatro para lhe provar o contrário.

Eu acredito que os valores humanistas e universais se transmitem da sociedade civil para a classe política, muito mais do que ao contrário. Mas para isso também precisamos de quatro anos de estabilidade, de um bom governo, sensato e benevolente, que sirva, se não de remédio, pelo menos de injeção contra essas erupções cutâneas nacionalistas, que nos fazem mal à pele e ao ego, porque somos sim, sem ventura, portugueses e universais.