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Um ator é um ator?

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“UM ATOR É UM ATOR!”, li por aí. Completamente de acordo, é essa a magia do cinema e do teatro, um bom ator pode representar tudo, até uma girafa ou uma pedra. Não importa a espécie, a expressão ou identidade de género, a cor da pele, a idade, a altura, o IMC… Devíamos acabar com xs diretorxs de casting, essxs terroristas ao serviço de lobbys e agendas wokes. O que importa é o talento, mais nada. Se fosse eu a mandar punha a Isabelle Huppert a fazer de Frodo e a Meryl Streep a fazer de Harry Potter. São as melhores atrizes vivas do mundo, caramba!

Tenho uma proposta: a partir de agora os castings para papéis específicos passam a ser proibidos. Arranja-se uma série de bons atores, escolhidos unicamente pelo seu talento e tira-se à sorte os papéis que vão desempenhar. Acabou-se o “Procura-se ator caucasiano entre os 30 e os 40 anos, blá-blá-blá”. Tem de se acabar uma vez por todas com esta coisa de escolher homens jovens grandes e atléticos para fazer de Superman, “é o fim da representação e a vitória da representatividade”. Proponho que para o próximo se escolha o Daniel Day Lewis ou o Jack Nicholson, são os atores com mais Óscares, parece-me bem. A idade e o corpanzil não correspondem? Não interessa. Talento! Talento! Pena a maravilhosa Katharine Hepburn, a atriz mais oscarizada, já não estar entre nós, senão seria perfeita para o papel. O talento, unicamente o talento e nada mais do que o talento. E espero que quando se fizer um biopic “à maneira” sobre o Zeca Afonso calhe ser a Maria de Medeiros, a Maria Rueff ou a Rita Blanco.

Anda por aí uma peça de teatro sobre o Amílcar Cabral e ó balhanosdeus escolheram um homem negro. Isto levanta suspeitas. Será que era mesmo o mais talentoso para o papel? A Beatriz Batarda passou o casting? Quer-me parecer que ganhou o lobby negro. É o fim do mundo. Esses agora andam metidos em tudo, já se apropriaram da pequena sereia e agora andam doidinhos para ter um James Bond.

Antigamente é que era bom, os homens brancos faziam os papéis todos, e quando era preciso toca a pintar a carinha de negro. Bem estiveram os que deram o papel de Jesus a mocinhos talentosos loiros de olhos azuis, isto sim é inclusão e “não se ver cores”. All lives matter. Talento, só talento! Belos tempos.

Pois, é. Perguntinha: porque é que quem grita “Talento! Talento!” no caso da peça “Tudo sobre a minha mãe” só o faz quando o que está em causa são pessoas trans ou em outras ocasiões as negras? Sabendo que raramente é só o talento que está em causa na representação, mas também um certo nível de congruência com a realidade, como ironizei mais acima? Porque é que teimam em fazer de conta que não existe contexto e circunstâncias políticas? Que estas pessoas não estão em posição de poder e hegemonia e que muito pelo contrário fazem parte dos grupos mais discriminados e violentados? E que só pedem mínimos, já que tantos outros acessos lhes são vedados?

Custa muito ouvir? Continuamos mesmo a pensar que o progresso vem sem desconforto? Ui, mostrou as mamas, invadiu o palco, caiu o Carmo e a Trindade.

E já agora, pequeno à parte para aliadxs: em vez de defendermos a nossa reputação na cara das pessoas que dizemos defender, com banalidades patéticas do tipo “desde que nasci que sou pela vossa luta”, porque não começar em primeiro lugar por ouvir, e tomar consciência que nesse preciso momento estamos a fazer o contrário daquilo que apregoamos. E depois de ouvir, se valer mesmo a pena ainda dizer alguma coisa, que seja: eu sou sensível à vossa causa e vou tentar fazer melhor.

Solidariedade e admiração pela coragem da Keyla Brasil e da Gaya de Medeiros! Não estão sozinhas!

Luísa Semedo

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