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Violoncelo

Sento-me numa cadeira mesmo defronte de ti
abro as pernas, puxo-te para mim
encosto o teu corpo nu e morno
ao meu ventre e ao meu peito
sinto-o estremecer de mansinho
antes mesmo de o tocar
frémito miudinho do trecho por perpetrar.

Pego bem em ti
gosto de pegar em ti
gosto de pegar bem em ti
gosto de te sentir aqui e assim
entre as minhas pernas
gosto de tocar-te
meu instrumento predileto.

Quando te toco és adagio, andante
harmonia, eufonia, perfeição
primeiro andamento, pauta sublimada
que sobe pelo meu corpo acima
allegro ma non troppo no meu rosto
partitura que se transfigura
és todos os instrumentos nos meus lábios

instrumento de sopro quando pouso a boca
sedenta de beijos arpejos solfejos desejos
instrumento de percussão quando te acaricio
o teu coração bate mais forte e sustenido
instrumento de cordas, em tensão, que dedilho
sabiamente até vibrarem vibrato
friccionadas de gozo vivace

passo e compasso
enlaças-me, abraças-me
presto, presta, lesta,
fazes um só corpo com o meu
presto prestissimo
toco-te mais, cada vez mais,
sem dó nem bemol

um momento breve semibreve
suspendo o tempo
‘demi-soupir’, pausa: respira!
da capo da capo
e agora semifusa, fusa
fusa-me totalmente
colcheia cheia e rutilante

e tu tónica, supertónica
subdominante, superdominante
chave-mestra do meu coração
clave de sol maior que irradia luz ‘maestosa’
tu és canção, poesia, ode, ária,
hino, sonata, sinfonia,
êxtase, orgasmo, amor.

JLC23092020
Imagem: “O violino de Ingres”, foto de Man Ray (1924)

Violoncelle

Je m’assieds sur la chaise juste devant toi
j’écarte mes jambes, je te tire vers moi
j’appui ton corps nu et chaud
contre mon ventre et ma poitrine
je le sens frissonner doucement
avant même de le toucher
il frémit un tout petit peu de la mesure qui doit se jouer.

Je te prends bien en main
j’aime te tenir dans mes mains
j’aime te serrer fort
j’aime te sentir ici et ainsi
entre mes jambes
j’aime te toucher et jouer avec toi
toi, mon instrument préféré.

Quand je te joue tu es adagio, andante
harmonie, euphonie, perfection
premier mouvement, tu es une portée sublimée
qui monte, surplombe mon corps
allegro ma non troppo sur mon visage
partiture qui se transfigure
tu es tous les instruments sur mes lèvres

instrument de souffle, quand j’y pose ma bouche
assoiffée de baisers arpèges solfèges désirs
instrument de percussion, quand je te caresse
et ton cœur se met à battre plus fort et diésé
instrument de cordes, en tension, que je le doigte
savamment jusqu’à ce qu’il vibre vibrato
frotté de plaisir vivace

pulsation sans demi-mesure
tu m’enlasses, tu m’embrasses
presto, preste, leste
tu fais corps contre le mien, un seul corps
presto prestissimo
je joue de plus en plus
sans clémence ni bémol

un moment bref semi-bref
je suspens le temps
demi-soupir, pause: respire !
da capo da capo
et maintenant je te croche la hampe
abondamment, totalement
amplement et rutilante

et toi tonique, supertonique
sous-dominante, super-dominante
clé de voûte de mon cœur
clave de soleil majeure
qui irradie de la lumière ‘maestosa’
tu es chanson, poésie, ode, aria
hymne, sonate, symphonie,
extase, orgasme, amour.

JLC26092020
Image : “Le violon d’Ingres”, photo de Man Ray (1924)

 

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