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Yara Camillo: a escrita como palco da alma

A paulistana Yara Camillo graduou-se em Comunicações e Cinema pela Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) e há mais de três décadas vem se dedicando à literatura e ao teatro. É autora dos livros de contos Hiatos (2004), Volições (2007) e Por Assim Dizer (2018). Diversas vezes premiada por sua obra ficcional, é também tradutora de importantes autores da literatura universal para o português, como Miguel de Cervantes, e professora de oficinas teatrais e literárias.

Em 1984, você escreveu e dirigiu a peça Cortázar Assim, em homenagem a Julio Cortázar. O que a levou a escrevê-la?

Vou me lembrar, aqui, de García Marquez dizendo que Cortázar, além de inspirar admiração, respeito e outros sentimentos em seus leitores, inspirava também devoção ou já afeição. Para mim, essa devoção se traduziu em encanto. Entre 1982 e 1983, montei, com adolescentes, Histórias de Cronópios e de Famas na periferia sul de São Paulo, região de Santo Amaro, através de um projeto cultural. Descobri que Cortázar falava muito, e de muito perto, àqueles meninos e meninas, bem como às plateias, as mais diversas, que assistiram às apresentações. Lembro-me que, na época, entreguei ao amigo de um amigo de uma jornalista, que em breve entrevistaria Cortázar, uma carta endereçada a ele, contando sobre a montagem das Histórias de Cronópios e de Famas. Além da carta, recheei o envelope com fotos, comentários e desenhos dos integrantes do grupo, sobre o trabalho. Cortázar nos deixou em fevereiro de 1984. Não saberei, nunca, se a carta chegou a suas mãos. Gostei, na época, de acreditar que sim. No início de 1984, fui trabalhar com um grupo de jovens artistas plásticos, na Biblioteca Monteiro Lobato. Embora tivesse um texto pronto, resolvi abrir o leque e sugeri ao grupo a leitura de outras obras de Cortázar, além das Histórias. E foi uma conjunção de arte muito bela. Eles se encantaram, tanto quanto eu, e trabalhamos por oito meses, criando cenas, desenhos e colagens, a partir dos textos. E tudo resultou num trabalho cujo nome não conseguíamos encontrar. Estávamos em agosto de 1984, a estreia se aproximava e não tínhamos um título. Então Ed, meu companheiro de vida, que assinava a direção musical do espetáculo, sugeriu: “Cortázar Assim… Cortázar visto desse modo, por vocês.” E assim foi.

Na infância e adolescência, você frequentou a Biblioteca Monteiro Lobato, em São Paulo, onde teve os primeiros contatos com a literatura e o teatro. Que autores leu nessa época?

Cresci numa casa onde se cultivava o hábito da leitura. Vivíamos modestamente, mas minha mãe volta e meia comprava livros. Além do mais, ela trabalhava como revisora, na editora Saraiva (e depois na Cultrix) e recebia, como presente, cada obra que revisava. Ela lia para mim, de modo que antes mesmo de ser alfabetizada, me encantei com os livros. Já na biblioteca, tive contato, além da obra de Lobato, com a obra de Maria José Dupré, Lúcia Benedetti, Hernani Donato e vários outros escritores que, inclusive, visitavam a biblioteca e conversavam conosco. Mas os meus preferidos eram mesmo os contos de Grimm e também uma coleção imensa, uma adaptação para crianças, d’As Mil e Uma Noites. A biblioteca, além da sala de leitura e de pesquisa, oferecia também uma sala de pintura, sala de jogos, sala de música e várias outras atividades, como teatro, meu primeiro amor, na arte. O grupo de teatro, que se chamava Timol, era dirigido por Iacov Hillel. Hoje vejo que a biblioteca exercia um papel social, além de cultural, importantíssimo, pois muitos pais que trabalhavam fora ou mesmo mães que eram donas de casa, podiam deixar ali os seus filhos. Além do mais, a biblioteca ficava numa praça, da qual também desfrutávamos. Eu passaria horas falando da Monteiro Lobato, que teve (tem!) um papel essencial na formação de várias gerações que por ali passaram.

Você é formada em cinema, trabalhou em teatro, mas se decidiu pela literatura. Como foi o processo de distanciamento das outras artes para se dedicar à palavra escrita?

Não vejo como um distanciamento. Exerci bem pouco o cinema, bem mais o teatro e hoje, mais acentuadamente, a literatura. Mas a palavra escrita e a palavra expressa em cena andam juntas, para mim. Quando escrevo, tenho um palco armado em algum ponto da mente ou da alma. Me agrada escrever na primeira pessoa, me agrada imaginar o conto falado, interpretado, levado a uma plateia – essa entidade que se forma e se recria diante de todos os palcos do mundo –, e isso acontece quando me apresento em um sarau ou em qualquer encontro literário. Ainda sobre esse “andar junto” da palavra escrita e da palavra em cena, cito como exemplo a construção dramatúrgica do espetáculo Donantônia, que fiz em parceria com o Núcleo Ás de Paus, de Londrina, Paraná, em 2016.

O mercado editorial brasileiro não contempla a maioria de seus autores. Infelizmente, ainda é uma tarefa árdua publicar um livro no Brasil, sobretudo de ficção. O que poderia mudar tal situação?

Neste momento em que a arte, em todas as suas expressões, a própria cultura e a alma do nosso triste Brasil têm sido tão aviltadas, parece ainda mais utópico falar da essencial necessidade de políticas públicas, não só dirigidas à literatura, mas a todas as formas de expressão artística. Em todos os tempos, inclusive neste momento de pandemia, é na arte que as pessoas encontram alento, alimento para a alma, conexão com algo que vai além da rotina, da realidade óbvia de todos os dias. O que poderia mudar tal situação, você disse? Talvez um despertar dos governantes a respeito da importância essencial das artes, das humanidades, das ciências, do conhecimento, enfim,  de tudo o que contribui para um viver melhor – e merecido – da nossa gente.

Seus contos Multiplicação dos Pães (2003), Copydesk (1987) e É Doce Andar de Ônibus (1985) foram premiados. Que importância tem uma premiação para você?

Já teve muita, quando eu era jovem. Hoje, o reconhecimento segue tendo sua importância, mas sou avessa ao conceito “winner”. Buscar o melhor é natural, mas o melhor de nós, sobre nós mesmos. Entretanto, um prêmio importa, sim. É uma resposta ao eterno “ó de casa” que nossa obra envia aos leitores, à plateia, a quem nos vê, nos lê, nos recebe. Quando envio um conto para um concurso, penso que ao menos três ou mais pessoas vão ler, pessoas a quem eu não teria acesso, de outro modo. E me agrada pensar assim. Acho ainda importante dizer que esses contos premiados foram, para mim, uma surpresa. O próprio Copydesk, que enviei no último dia de inscrição de um concurso cujo edital recebi de uma amiga, na véspera, tinha um quê de provocação. Pensei: “vou arrepiar os jurados com esse personagem injuriado.” Mas os jurados eram Marcos Rey, Ilka Laurito e Lourenço Diaféria. E foram eles os adoráveis culpados que me incentivaram a compor meu primeiro livro, que chamei de Antes do Outono.

Uma das características de um conto é a sua concisão. Às vezes, lemos um conto e desejamos sua continuação, como em Dona menina, por exemplo. Já pensou em escrever um romance?

Pensei. E estou escrevendo. A segunda parte do meu livro, Por Assim Dizer, tem o título de Ressonâncias e é assim anunciada: “Como um acorde que se prolongasse na memória, depois de finda a música, seguem-se breves relatos de momentos outros que não os mencionados nos contos…” Ou seja, cada conto da primeira parte tem sua respectiva ressonância, que se resume no relato de um momento anterior ou posterior ao que já foi narrado. A criação dessa segunda parte me abriu caminho para o romance.

Em 2004, você publicou Hiatos, seu primeiro livro de contos, em seguida, Volições (2007) e  Por Assim Dizer (2018). É possível eleger um deles como seu preferido? Como foi o processo de escrita e seleção dos contos que os compõem?

Eu não poderia eleger um preferido. Vejo, em cada um, acertos e falhas. Já tive vontade de copidescar todos eles, para que permanecesse apenas o que fosse mesmo arte. Mas claro que isso não faz sentido. Quanto ao processo de escrita e seleção dos contos, foi algo que ocorreu naturalmente ou assim me pareceu. Em Hiatos, eu tinha uma verba para a publicação e tinha também um prazo a cumprir. Reuni os contos escritos, desde a década de 1980, até os mais recentes (estávamos em 2004), buscando formar um livro. Hiatos resultou numa obra com alguns bons contos, mas um tanto irregular, no seu conjunto. O apoio de Reginaldo Dutra, o editor, e também de Caio Porfírio Carneiro, que o prefaciou, foram essenciais. No final de 2005, conheci Massao Ohno e com ele editei meu segundo livro, Volições, que Massao compôs a partir de Hiatos e de alguns outros contos, inéditos. Levamos um ano, numa rotina que pode se resumir assim: primeiro, Massao compôs o livro (e deu o título, Volições) e me entregou, com algumas sugestões. Eu li, fiz alterações, levei de volta para ele, que leu e me devolveu. E assim, passou-se o ano de 2006, até que, no início de 2007, Volições ficou pronto. Aprendi muito, com Massao, sobre editoração e composição de um livro. Saí enriquecida do contato com essa pessoa rara, esse editor singular. Já Por Assim Dizer nasceu de uma conversa com Eduardo Lacerda, no Espaço Patuscada, em 2016, durante um evento literário – o Desconcertos – coordenado por Claudinei Vieira. Levei um ano para selecionar os contos e compor o corpo do livro (para usar um termo de Massao), que saiu em abril de 2018. Cada um desses livros é, para mim, único. Claro que os contos de Hiatos são mais imaturos. Já o trabalho de edição de Volições é, a meu ver, o mais belo. E em Por Assim Dizer, creio que cheguei mais perto da simplicidade que busco, na minha escrita. Mas um não existe sem o outro, todos são parte da minha trajetória, inclusive aquele primeiro livro, primeiro passo, Antes do Outono.

Você traduziu as Novelas Exemplares de Cervantes, publicadas em 1613. Como foi o processo de pesquisa para traduzi-lo? Qual a sensação de traduzir um texto clássico como o de Cervantes?

A sensação é única, tal como a constatação, uma vez mais, de que o conhecimento é infinito. A dificuldade maior não era traduzir, mas buscar o sentido da escrita daquela obra. E a resposta não estava no achado do sinônimo mais perfeito. A rota de tradução de uma obra é muito próxima da criação ou já ambas se confundem. Vou me lembrar aqui de um fato que ocorreu logo no início do trabalho, quando eu seguia um critério, até então costumeiro: deixava de lado a função de traduzir para me entregar à obra como leitora. Esperava, como sempre, que num dado momento me ocorresse um caminho, um modo, enfim, de tentar uma vez mais contestar o incontestável: traduttore-traditore. Mas nas Novelas tudo aconteceu de modo bem diferente. Ou melhor, nada me ocorreu, a não ser o encanto pela leitura. Nenhum achado, nenhuma via de tradução. Ao contrário: eu me perguntava como faria para transmitir-traduzir Cervantes ao leitor da nossa língua, como estender uma ponte, a mais neutra possível, entre um idioma e outro, entre sua escrita e o leitor, franqueando a este a passagem, propiciando ao máximo que ele conversasse com o autor e me colocando, por assim dizer, à disposição de ambos como intérprete. Mas ao intérprete, há que lembrá-lo de que os sinônimos nem sempre têm igual significado ou sentido. Ao longo do trabalho, entre as várias obras de referência e consulta, eu acessava o DRAE, Diccionario de la Real Academia Española. Para iniciar o dicionário, escolhia uma palavra e a digitava, para abrir a tela. Digitando a palavra amor, certo dia, deparei-me com seu primeiro significado: “Sentimento intenso do ser humano que, partindo de sua própria insuficiência, necessita e busca o encontro e a união com outro ser.” (“Sentimiento intenso del ser humano que, partiendo de su propia insuficiencia, necesita y busca el encuentro y unión con otro ser.”) Em nenhum momento, nosso Houaiss ou nosso Aurélio definem assim a palavra amor. Nas outras definições que se seguem, no DRAE, o amor, no idioma espanhol, se encontra com o amor, no nosso idioma. Permanece o sentido de “forte afeição por outra pessoa, nascida de laços de consanguinidade ou de relações sociais”. Mas, aqui, se confirma a profunda semelhança e a ainda mais profunda diferença entre o idioma português e o espanhol. Ou seja, uma palavra, mesmo tendo uma correspondente em outra língua, nem sempre tem o mesmo sentido. E digo no sentido de sentir, ou seja, a maneira como um povo percebe e constrói seu pensamento, sua fala. E mesmo quando o sentido parece idêntico, muitas vezes é só um parecer. Lá no profundo, no escondido das coisas, vive a diferença essencial, preciosa.

Encontra na tradução o mesmo prazer da criação de um texto literário?

Sim. E também o mesmo sofrimento, o mesmo alívio, o mesmo tudo.

Você declarou, certa feita, que “ao concluir um trabalho, é bom deixá-lo por um tempo na gaveta, para que as palavras conversem lá entre elas e deem um jeito nas tolices do escritor.” Que obra sua esteve mais tempo na gaveta?

Essa foi uma brincadeira que surgiu numa prosa com o querido, saudoso Caio Porfírio Carneiro, na União Brasileira de Escritores (UBE). Comentávamos sobre aquela sensação, que às vezes nos ocorre, quando escrevemos um conto, o lemos e o achamos bom. Já numa outra leitura, encontramos tantos defeitos, que pensamos em deixá-lo de lado. E então concluímos que, quando deixamos um conto na gaveta, as palavras conversam entre si e, por pura compaixão, corrigem nossos cochilos ou já nossos vacilos. É uma brincadeira, mas vale aqui lembrar Horácio, que recomenda que não se publique uma obra, antes que se passem nove anos da sua conclusão. Falando de minhas obras, acho que algumas ficaram por esse tempo ou mais, na gaveta, na pasta, no caderno, na memória de um computador. Não porque, na época, eu conhecesse Horácio, mas porque estava à espera de que um livro se formasse, em mim.

Sobre o autor da entrevista: Angelo Mendes Corrêa é doutorando em Arte e Educação pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), professor e jornalista. Itamar Santos é mestre em Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), professor, ator e jornalista.

 

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