A região de Bordéus e o sudoeste de França têm enfrentado vagas de incêndios florestais de dimensões históricas e sem precedentes, colocando à prova os limites dos sistemas de proteção civil europeus.
Os incêndios de proporções catastróficas na região da Gironde já consumiram, só naquela zona, mais de 42.000 hectares de floresta contínua. No total em França , segundo o Ministro do Interior , já arderam 115 000 hectares de vegetação.
A escala do desastre obrigou à evacuação preventiva e urgente de mais de 220.000 pessoas, gerando desafios logísticos imensos para o alojamento de dezenas de milhares de desalojados em centros de exposições e pavilhões municipais. A evacuação das populações, por vezes incompreendida, permitiu evitar até hoje a existência de qualquer vítima civil.
Para combater frentes de fogo ativas e, sobretudo, imprevisíveis junto a zonas urbanas, as autoridades mobilizaram recursos excepcionais.
Cerca de 2.500 bombeiros profissionais e voluntários operam no terreno, apoiados por centenas de viaturas de combate a incêndios. Além disso, o governo mobilizou mais de 1.000 efetivos das Forças Armadas e unidades de polícia e “gendarmerie” para garantir a segurança, executar evacuações e abrir faixas de contenção (como contra-fogos estratégicos).
Uma frota importante composta por aviões anfíbios Canadair e aeronaves de reconhecimento e combate (como os Dash-8) realizam operações contínuas de largada de água para tentar conter o avanço das chamas nas zonas de difícil acesso. Convém referir que a França apesar de ter uma frota de 12 Canadair, nem sempre operacionais devido à manutenção, para uma área geográfica de 543 940 Km2, é inferior, por exemplo , à da Itália com 15.
Em França muito se tem falado das “Orages de Feu” (Tempestades de Fogo).
O que torna os incêndios na região de Bordéus particularmente perigosos e difíceis de combater é a dinâmica única do maciço florestal das Landes pois trata-se de uma vasta área de relevo predominantemente plano, repleta de uma densa floresta de pinheiros e vegetação altamente inflamável e ressequida pelas ondas de calor.
Até ao século 19 esta era uma região insalubre, pantanosa, muito pobre e pouco povoada e foi necessário drenar os pântanos , sanear a região e fixar as dunas de areia. Assim foram então plantados em massa pinheiros bravos que deu origem à actual floresta que os nossos emigrantes conhecem bem pois quando se deslocam para Portugal de automóvel têm a oportunidade de a atravessar.
Devido à imensidão contínua da massa florestal e ao calor extremo, o fogo gera um comportamento convectivo colossal. O ar quente sobe rapidamente a grandes altitudes, criando correntes de convecção violentas que geram as tais “tempestades de fogo”.
“A natureza nunca deixa de nos ensinar”.
Foi esta a frase que utilizou um antigo professor meu para me responder sobre as dúvidas que eu tinha sobre as razões da violência da tempestade que assolou Paris em 2006 , pois a sua dimensão, face aos elementos naturais existentes, não respondia totalmente ao que tinha aprendido na faculdade .
Esta frase marcou-me para sempre.
Carlos Gonçalves
