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Dia de todos os santos

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“Dos Santos ao Natal é bom chover e melhor nevar.”

“Dos Santos ao Natal vai um salto de pardal.”

Entre tantos anexins que a memória popular foi guardando, estes dois abrem o mês de Novembro com sabedoria muito antiga quando se lia o tempo no Céu e o futuro nas Estações. O dia 1 de Novembro é o Dia de Todos os Santos; o dia 2, o Dia dos Fiéis Defuntos – expressão curiosa, que sempre me fez pensar o que quer verdadeiramente dizer “fiéis” neste contexto: fiéis a quê?! À memória? À fé que os sustentou em vida? Ou à morte, que a todos, cedo ou tarde, reclama fidelidade?

Outrora, esta era uma época de recolhimento. As famílias vestiam-se com recato e seguiam em silêncio até ao cemitério, levando flores, velas e muita contenção que hoje desapareceu. Havia serenidade melancólica no gesto de visita. Uma conversa muda, muito sentida entre os vivos e os mortos, como que a dizer: aqui estou.

Hoje, as modas importadas transformaram a introspecção em espectáculo. O recato cedeu lugar às máscaras e abóboras do Halloween, e as tradições genuínas vão-se dissolvendo na espuma dos novos tempos.

A festa que fora religiosa tornou-se mais pagã, mais ruidosa, mais distraída. Já ninguém pára diante das campas como que a falar com o passado. O acto de velar pelos nossos mortos. Verbo tão belo, que tanto quer dizer “vigiar” como “guardar a luz”, vai-se perdendo, e com ele perde-se uma parte da nossa alma passada.

Os ditados populares, esses, resistem como pequenas jóias de sabedoria. São simples, mas raramente falham. “Dos Santos ao Natal vai um salto de pardal” resume o que o tempo apressa. Quem não chegar ao Natal, ou mesmo ao Ano Novo, já não tem muito para viver e lembra-nos a finitude. Faltam sessenta dias para o novo ano, e o Natal já espreita por perto. Símbolo de renascimento, promessa de luz em pleno Inverno.

O povo, com o seu engenho, dizia tudo em poucas palavras. Por isso lhes chamam ditados. Porque ditam verdades que o tempo confirma e a vida, inevitavelmente, repete.

Mário Adão Magalhães

(Não pratico deliberadamente o chamado Acordo Ortográfico).

Esta publicação é da responsabilidade exclusiva do seu autor.

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