Emma Lazarus e as suas raízes portuguesas: Da memória sefardita à Estátua da Liberdade
Na história das relações entre Portugal e os Estados Unidos da América, marcadas por mais de dois séculos de amizade diplomática e por fortes laços humanos, destaca-se a figura de Emma Lazarus (1849-1887), célebre poetisa norte-americana de ascendência judaico-sefardita portuguesa, autora do poema The New Colossus (“O Novo Colosso”), gravado numa placa de bronze no pedestal da Estátua da Liberdade, um dos maiores símbolos universais da liberdade, da esperança e do acolhimento.
Emma Lazarus nasceu a 22 de julho de 1849, em Nova Iorque, no seio de uma família judaica de ascendência sefardita, ligada à história dos judeus de Portugal e de Espanha. A expulsão dos judeus de Espanha, em 1492, e as medidas decretadas em Portugal a partir de 1496, seguidas das conversões forçadas de 1497, deram origem a sucessivas vagas de exílio. Os seus descendentes estabeleceram-se em diferentes países, preservando memórias, tradições e ligações à Península Ibérica.
Em 1883, Emma Lazarus escreveu The New Colossus, a pedido de William Maxwell Evarts, no âmbito de uma iniciativa de angariação de fundos destinados à construção do pedestal da Estátua da Liberdade. Inaugurado a 28 de outubro de 1886, o monumento, oferecido pela França aos Estados Unidos, adquiriu, em parte graças ao poema, um significado que ultrapassou a celebração da liberdade política, passando a representar também a esperança dos imigrantes e dos refugiados. Emma Lazarus morreu em 1887, e os seus versos só foram inscritos numa placa de bronze no interior do pedestal em 1903.
Muito antes, no século XVII, a história dos judeus sefarditas portugueses já se cruzara com a formação das comunidades judaicas na América do Norte. Durante o domínio holandês de parte do Nordeste brasileiro, o Recife acolheu uma comunidade judaica que beneficiou de condições de maior liberdade religiosa. Com a reconquista portuguesa da região, em 1654, e perante o receio de perseguições inquisitoriais, um grupo de judeus refugiou-se em Nova Amesterdão, então uma colónia holandesa na ilha de Manhattan, lançando as bases de uma presença judaica duradoura na cidade que viria a chamar-se Nova Iorque.
A congregação Shearith Israel, de tradição sefardita e historicamente conhecida como Spanish and Portuguese Synagogue, tornou-se uma das instituições centrais desta comunidade. A sua história testemunha a importância dos judeus de origem ibérica na vida religiosa, económica e cultural da América do Norte.
Entre as famílias que ilustram esta herança encontra-se a dos Mendes Seixas. Isaac Mendes Seixas, nascido em Lisboa no início do século XVIII, era trisavô de Emma Lazarus, poetisa norte-americana de ascendência judaico-sefardita portuguesa. Estabelecida na América do Norte, a família teve uma participação relevante na vida religiosa, económica e cívica das comunidades judaicas. Entre os seus descendentes destacou-se Moses Mendes Seixas, dirigente da comunidade judaica de Newport, no estado de Rhode Island, que, em 1790, dirigiu uma carta a George Washington por ocasião da visita do presidente à cidade. Na resposta, Washington reafirmou os princípios da liberdade religiosa e da igualdade cívica, num testemunho significativo dos ideais da nova república americana.
A ascendência sefardita portuguesa de Emma Lazarus inscreve-se neste percurso de exílio, reconstrução e participação cívica. A sua obra, porém, não se limitou à evocação das origens familiares. Sensível à situação dos judeus perseguidos na Europa, a poetisa envolveu-se no apoio aos imigrantes em Nova Iorque, experiência que contribuiu para a dimensão humanista do seu pensamento.
No célebre soneto, a Estátua da Liberdade deixa de ser apenas um monumento à grandeza nacional. Emma Lazarus transforma-a na «Mãe dos Exilados», uma figura que ergue a tocha para acolher aqueles que chegam de terras distantes, cansados da perseguição, da pobreza e da opressão. Os versos «Dai-me os vossos cansados, os vossos pobres, / as vossas massas apinhadas, ansiosas por respirar liberdade» tornaram-se uma das mais conhecidas expressões do ideal de acolhimento associado aos Estados Unidos.
Esta mensagem permanece atual num mundo marcado por guerras, deslocações forçadas e debates sobre a imigração. A história demonstra que a liberdade não se esgota na proclamação de princípios, exige também respeito pela dignidade humana, proteção dos perseguidos e capacidade de acolher quem procura reconstruir a sua vida.
A diáspora portuguesa faz igualmente parte desta história. Atualmente, cerca de 1,5 milhões de pessoas nos Estados Unidos identificam-se com ascendência portuguesa, segundo estimativas baseadas em dados censitários. Ao longo de gerações, os portugueses e os seus descendentes têm contribuído para a vida económica, social e cultural do país, preservando os laços com Portugal e construindo pontes entre as duas margens do Atlântico.
A história de Emma Lazarus recorda-nos que as identidades nacionais também se constroem através de percursos familiares que atravessam fronteiras. As suas raízes sefarditas portuguesas ligam a memória da Península Ibérica à história dos Estados Unidos e à experiência universal da diáspora.
A tocha que ilumina a entrada do porto de Nova Iorque permanece, assim, como símbolo de uma história que também passa por Portugal, uma história de exílio e esperança, de memória e integração, que continua a interpelar a diáspora portuguesa e o mundo contemporâneo.
Daniel Bastos
