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Mudança de estação

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Ainda ficámos a tagarelar na rua durante uma boa meia hora, como costumam fazer os portugueses quando se despedem. Levada por amigos, degustara maravilhas da cozinha tradicional da Arménia e do Cáucaso algures nas Avenidas Novas em Lisboa. Aquele restaurante estava na moda.

Os meus amigos iam para uma zona totalmente distinta da cidade. «Não se preocupem, chamo um Uber.» E assim fiz. Estaria a uma distância curta, mas a viatura tardava. Apercebo-me de que estou numa zona pedonal, com um único ponto de acesso àquela fieira de restaurantes e que essa entrada está bloqueada por um enorme camião do lixo. No ecrã do telemóvel vejo que o Uber anda às voltas num emaranhado de semáforos e sentidos únicos, qual ratinho num labirinto. Ando uma boa centena de metros até a uma esquina de onde penso que o Uber surgirá sem esbarrar com o camião do lixo. E surgem vários, mas não o meu.

Estou prestes a anular a corrida, algo que detesto fazer. Reparo que o motorista se chama Hichem, como um dos grandes amigos do meu filho em Berlim. Espero. 

Finalmente aparece um Uber com um Hichem lá dentro. Abre o vidro, põe a cabeça de fora e pergunta: «Eduarda?». Digo que sim, entro no carro e atiro-lhe um hello. Devolve o hello e desculpa-se num inglês esfarrapado, que difícil chegar aqui, confusão! Rio-me, sim, confusão, estas ruas! É um homem novo, trinta e poucos anos talvez, afável. Meto conversa. «Há quanto tempo está em Portugal?» «Há sete anos…». E mudo para português: «Sete anos? E fala português?»

Sim, fala! A surpresa fê-lo virar a cabeça ligeiramente para trás. Quase deu um salto de alegria. «Senhora é portuguesa? Ah, sim, Eduarda, pensei portuguesa ou brasileira, mas falou inglês!! Porquê? Se é portuguesa porque falou inglês?». Embatuquei.

Hichem fala. É «algeriano», diz numa típica contaminação francófona. Fala com o esforço de quem não pratica o português diariamente. «Ainda não falo bem. Vim sem nada, sem ninguém. Falava língua nenhuma, nada inglês, só árabe e francês…

Como se fosse pouco…

Explicava que não tinha com quem falar português. Vivia num quarto com outro rapaz e falavam árabe. Conhecia dois ou três portugueses, mas não estava muito com eles. Os casados com uma portuguesa ou com uma brasileira aprendiam muito mais depressa e falavam melhor do que ele, mesmo com menos tempo de Portugal, dizia Hichem. Mas ele não tinha mulher e, por isso, aprendia mais devagar. E os clientes não falavam, não diziam nada, às vezes nem olá. Ele dizia «Olá», e não respondiam,«não dizem nada na viagem toda…».

Perguntei-lhe se gostava de estar em Portugal. «Sim, calmo, não há stress. Não é trabalhar pouco e ganhar muito dinheiro, isso muito difícil, acho…» e ria-se. «Aqui, bom, suficiente para viver sem stress. Aqui, bom. Não é como na França.».

Sim, vivera e trabalhara em França. Tem família em Paris e em Montpellier. «Mas França, não, não é bom. Muito stress. França, chegou! Apanho o avião, chego a Lisboa, sem ninguém, sem falar… Saí do avião, do aeroporto… a luz, as pessoas… – levantou a mão direita do volante e fez um gesto largo – … abriu-se logo o coração!».

E bateu com o punho fechado no peito. Retive a custo as lágrimas. No fim da viagem, agradeci-lhe a conversa, apertei-lhe a mão e desejei-lhe boa sorte.

Lembrei-me de uma conversa com uma amiga, mulher linda, culta e inteligente. Só aceita um Uber com um nome lusófono. Não quer Hichems nem Mohameds. «E se não falam português? Ou nem sequer inglês? Como posso sentir-me segura se não consigo fazer-me entender? Se o motorista não me puder levar a um hospital se for preciso? Trabalham com pessoas, têm de aprender português! Ou então, que vão trabalhar para os campos!».

Tento fazê-la ver a improbabilidade de ter um chilique em plena viagem uberiana. E tem alternativas, táxis clássicos, transportes públicos, viatura própria. A maioria dos Hichems tem poucas ou nenhumas alternativas, para o trabalho, para a habitação, ou para a aprendizagem da língua, sobretudo se não falarem com eles. Mas a minha amiga mantém-se peremptória, como se fosse fácil, simples e rápido aprender uma língua – e ainda por cima uma língua como a nossa, eh, eh… – quando se trabalha de sol a sol e se está isolado ou limitado à sua própria comunidade. «Só não aprende quem não quer!», ripostou. É falso. No Luxemburgo, os trabalhadores portugueses ou de outra nacionalidade qualquer, devem saber alguma coisa a este respeito.

Veio-me também à memória um parágrafo de Cesare Pavese: «Corri bastante mundo e aprendi que todos os sangues são bons e iguais, mas é por isso que a certa altura nos cansamos e procuramos criar raízes, arranjar uma terra, para que o nosso sangue valha e dure algo mais do que uma vulgar mudança de estação.».

E se falássemos mais com os Hichems? Os Hichems de hoje já se chamaram António ou Joaquim. Falemos com eles. Para que possam deixar de correr de estação em estação e poisar.

Eduarda Macedo

Esta publicação é da responsabilidade exclusiva do seu autor.

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