Os nossos Bombeiros Voluntários de Felgueiras, a minha memória
A Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Felgueiras irá eleger, no dia dez de Janeiro, os seus Órgãos Sociais. Para mim, esta não é uma data neutra, nem meramente administrativa. O dez de Janeiro assinala, na minha memória pessoal, o início de uma actividade ligada às letras, ainda na infância. Mas essa é outra história, que aqui deixo apenas insinuada, com respeito pelo silêncio das origens. Coincide, contudo, com o tempo em que começo também a construir uma ligação afectiva à nossa Associação de Bombeiros de Felgueiras.
Quando digo “nossa Associação”, não recorro a uma figura de estilo, nem a um lugar-comum retórico. Esse “nossa” tem peso, tem densidade, tem história. Houve um tempo em que grande parte dos felgueirenses sentia a corporação como verdadeiramente sua, como uma extensão natural da comunidade, um corpo vivo ao serviço de todos. Eu senti-a assim desde muito cedo, de forma pueril, talvez um pouco onírica, mas intensamente verdadeira.
Recordo a minha entrega ainda nos tempos da escola primária, quando os peditórios realizados por ocasião da Feira de Maio eram momentos de genuína importância colectiva. Não eram meros actos formais de angariação de fundos. Eram também acontecimentos vividos com emoção, com participação cívica, com um sentido de pertença que hoje parece quase anacrónico. A minha data de nascimento coincide com esse período do ano e, por uma dessas coincidências felizes que a vida nos oferece, junto de minha casa existia sempre um dos pontos de peditório anual. Era, aliás, reconhecidamente um dos mais rendíveis, e lembro-me de ouvir dizer que muito se devia à minha participação e ao facto de continuarmos activos mesmo durante a hora de almoço.
Guardo na memória dádivas generosas, gestos simples e outros inesperados, pormenores que ficaram inscritos no tempo, ainda que nem todos se prestem a esta narrativa. A atracção exercida pelos carros antigos, verdadeiras peças de museu, colocados estrategicamente para assinalar o peditório e chamar a atenção de quem passava, foi decisiva para que ali permanecesse ano após ano. Enquanto os meus amigos iam à Feira de Maio, eu ficava. Menino ainda, nos dias em que se celebrava o meu aniversário, escolhia não ir à festa para continuar a ajudar os Bombeiros.
Na hora em que os bombeiros destacados para o peditório iam almoçar, ficava eu com o senhor João Cachada, que morava rigorosamente em frente, do outro lado da estrada.. Era uma figura marcante, reconhecida por todos, não apenas pelo peito carregado de medalhas, mas pela presença física, pelos movimentos lentos e pela autoridade tranquila que emanava. Presumo que fosse já bombeiro do Quadro de Honra. Aproveitava a minha agilidade para me mandar correr atrás dos veículos que, na maioria das vezes, paravam longe. Vivi assim episódios curiosos, que guardo com carinho, ainda que não sejam essenciais para esta prosa. Quando regressava com uma nota de cinquenta escudos, era motivo de festa. Uma vez trouxe quinhentos escudos, oferecidos por uma figura então bem conhecida na terra, ao volante de um enorme Mercedes preto, a gasolina. O senhor João Cachada exibiu essa nota com legítimo orgulho quando os colegas regressaram, como quem exibe um troféu colectivo.
Por essa altura, o meu pai já se tornara associado da Associação. Mais tarde, após o seu falecimento, fiz questão de manter a quota em dia, sem alterar o nome no cartão de associado. Eu era pequeno e não tinha poder de decisão em casa, mas tinha convicções. E essas convicções falaram mais alto. Hoje, passados cinquenta anos, o número de associado permanece, orgulhosamente, na casa das três centenas. Sou eu quem o mantém, apesar de, ainda estudante, me ter tornado também associado em nome próprio.
Guardo igualmente memórias das aquisições de viaturas e das festas que se faziam à sua chegada. Viaturas que hoje são consideradas históricas, algumas delas com matrículas que a minha memória conserva com uma nitidez quase fotográfica. Sempre senti orgulho nos nossos bombeiros, na nossa corporação, e vivi momentos de emoção profunda que prefiro não transcrever, porque pertencem mais ao domínio do sentir do que ao do dizer.
Não gostaria, por isso, de ver hoje a nossa corporação partidarizada, nem instrumentalizada ao serviço de outras ambições, nomeadamente políticas. Recordo os tempos em que existia apenas uma lista candidata. Reconhecia que uma participação mais alargada da sociedade poderia ser saudável e desejável; ainda assim, sentia orgulho em acreditar que aquelas pessoas se apresentavam movidas apenas pela entrega, pela disponibilidade e pela abnegação, assumindo o peso e a responsabilidade de integrar os Órgãos Sociais sem outro horizonte que não fosse o serviço à causa.
Recordo, de forma muito especial, as eleições de Janeiro de 1996. Apresentei-me no Salão Nobre enquanto jornalista. Como não era habitual a Comunicação Social em Felgueiras interessar-se por aqueles actos, fiz questão de esclarecer que, além de jornalista, era associado e felgueirense atento e interessado. O senhor Agostinho Ferreira e o senhor Horácio Reis, habituais presidentes da Direcção e da Assembleia Geral, respectivamente, manifestaram satisfação pela minha presença e disseram-me que gostariam que ali estivesse, em qualquer uma das três posições. Explicaram-me que os presentes, numa sessão aberta ao público, não eram senão os membros dos órgãos sociais.
Fiz o meu trabalho como então se fazia no jornalismo. Tomei apontamentos, observei, ouvi. Era a noite de vinte e dois de Janeiro de mil novecentos e noventa e seis. Nunca cheguei, porém, a escrever essa peça jornalística. Lembro-me com nitidez de, por volta das vinte e três horas e quinze minutos, sair da assembleia, descer as escadas e cumprimentar os bombeiros que estavam no piso inferior, com a intenção de regressar a casa para concluir o trabalho. Lembro-me apenas de entrar no carro e seguir. Mais tarde, soube que foram esses mesmos bombeiros que me socorreram. Dizem que eu estava lúcido, preocupado com o meu estado, a chamá-los pelos nomes certos. Dessa parte – de todo o acidente – não guardo memória. Guardo apenas as marcas no corpo e a dor crónica: uma neuropatia.
A minha vida ficou, a partir daí, fisicamente marcada para sempre.
Se já existia aquela ligação de infância, construída nos peditórios, nas escolhas repetidas de ficar a ajudar ano após ano, sobretudo na hora do almoço, ao lado do senhor João Cachada, abdicando da Feira de Maio e da convivência com os amigos, então essa marca tornou-se definitiva. Um vínculo sentimental à nossa corporação, quase amoroso, muitas vezes emotivo, sobretudo quando oiço o silvo aflito das viaturas e imagino os homens e mulheres abnegados no socorro aos nossos semelhantes. Arrepio-me sensibilizado.
É por isso que desejo que, agora, eleita a nova Direcção, continuemos a sentir orgulho. Que continuemos reconhecidos como outrora, quando dizer que éramos de Felgueiras significava, também, sermos reconhecidos por termos os melhores e mais modernos veículos e equipamentos. E, acima de tudo, que continuemos a sentir que os Bombeiros Voluntários de Felgueiras são, verdadeiramente, nossos.
Termino, contudo, com uma nota menos agradável. Para quem, desde criança, ainda sem responsabilidades formais em casa, assumiu como sua a preocupação com o cumprimento das quotas, há quarenta e oito anos, desde a morte do meu pai, é particularmente desagradável reconhecer que, apesar das várias medidas adoptadas desde 2022 para regularizar as quotizações, não o tenha conseguido fazer.
Mário Adão Magalhães
(Não pratico deliberadamente o chamado Acordo Ortográfico).
