Pois é amigo Martins, mais um ano que passou desde aquele fatídico dia de Outubro.
Penso em ti muitas vezes. Nas nossas aventuras em S. João da Madeira, quando partilhamos cerca de dezassete meses do curso de modelação de calçado, dos muitos momentos de diversão, camaradagem, mas acima de tudo uma boa amizade. Já la vão muitos anos que não sei nada dos nossos companheiros de curso. Especialmente os que viajavam connosco todas as semanas desde Felgueiras até S. João da Madeira, às segundas de manhã bem cedo, e de S. João da Madeira até Felgueiras, todas as sextas ao fim da tarde, às vezes já de noite. O Oliveira de vez em quando liga comigo pelo WhatsApp, e falamos por muito tempo. Muitas vezes nas nossas conversas falamos em ti. Recordamos momentos saudosos que, como tu amigo, não voltam mais. Também nós um dia partiremos para não voltar mais.
Não faço ideia por onde ande o Paulo Faria ou o Ernani. De vez em quando vou ao Facebook da minha princesa e espreito a página do Henrique. Tanto quanto posso perceber parece estar tudo bem com ele. O Mário Adão todos os anos, por esta altura, mete na sua página do Facebook uma fotografia em que estás tu, o Diogo e ele mesmo. Se não estou em erro fui eu que tirei essa fotografia, mas não posso precisar. A distância que os anos nos separam desses momentos saudosos, às vezes turvam as certezas do que foi e não foi. Por falar no Diogo, vou falando com ele por mensagem. Nestes últimos anos não nos temos encontrado porque quer o destino, e se não for o destino serão as circunstâncias, que não nos encontremos quando eu vou a Portugal. A razão está no facto de que ele passa muito tempo pelas africas. Recentemente deu-lhe para partir um tornozelo. Vê lá tu amigo, com tantos sítios em Felgueiras onde poderia partir o tornozelo, ou até bem mais alguns ossos, foi parti-lo algures numa montanha da Namíbia com um nome tão estranho quão tortuosos são os caminhos ziguezagueantes desse trilho. Mas as boas noticias são as de que está a recuperar bem e dadas as circunstâncias não perdeu o sentido de humor.
Quanto ao meu livro de memórias está pronto há muito tempo mas continua na gaveta. Falta-me a coragem de o mandar à estampa. Não porque eu ache que o livro não tenha qualidade. De facto, depois de tantas revisões, fiquei com a impressão de que escrevi cerca de noventa e oito mil palavras de uma história que poderá servir de inspiração e coragem a quem passa por um inferno como o que eu, e os que mais chegados a mim, passamos.
Todas as personagens que fazem parte desta história, mesmo que às vezes de maneira muito passageira, têm nomes fictícios, à parte do teu, o Mário Adão, e o Diogo. Na parte que a ti diz respeito conto uma breve passagem em que me deste um conselho, e uma séria advertência também, como bom amigo que sempre foste, e que eu, infelizmente para mim, ignorei. Tudo teria sido bem diferente, e tão mais fácil para mim, se eu levasse em conta esse teu conselho e advertência.
De vez em quando envio um excerto do meu livro de memórias para o BOM DIA. O Raúl Reis diz-me, – “Temos de tratar de publicar isso… Pensa nisso…outra vez” – e de facto eu penso. Mas as revelações feitas nesse livro de memórias, não que a mim me importe, mas onde por força das circunstâncias há família direta envolvida, a decisão de expor a minha vida não é tão fácil de decidir quanto possa parecer. No entanto, como diria o Mário Zambujal, Todos Bons Rapazes. E isso é que importa.
De resto, amigo, preocupa-me bastante o futuro. Depois de duas guerras mundiais, ditaduras, opressão, liberdades espezinhadas e amordaçadas, para qualquer lado que a gente se vire é o triste espetáculo das extremas direitas a proliferar, como se fosse essa a salvação do mundo. O mesmo mundo onde milhares de pessoas perderam a vida, e muitas outras sofreram as amarguras das cicatrizes profundas, consequências dessas guerras, para que o povo adquirisse direitos e liberdades, a maior delas, a possibilidade de expressar as suas ideias. E passado esse sacrifício dos nossos pais e avós, o povo, porque tem memória curta, como ovelhinhas bem-mandadas deixam-se enganar de sorriso aparvalhado no rosto. Até no nosso país, um jardinzinho em forma de retângulo, à beira-mar plantado, prolifera em admirável ascensão, aqueles que defendem a expulsão dos emigrantes. Diz-me lá meu amigo se dá ou não dá vontade de rir? Nós que somos um país que produziu mais emigrantes do que a padaria produz pão. Como se isso não fosse suficientemente engraçado, foram os nossos emigrantes no estrangeiro, os que mais votaram na escolha da dita extrema-direita. Emigrantes a gritar em uníssono, – espetem um pontapé no cu aos emigrantes que vão para Portugal roubar os empregos dos portugueses…enfim, mais engraçado do que isto será difícil…
Preocupa-me também a inteligência artificial, que sendo usada com bom senso, e responsabilidade, poderia ser a invenção mais fantástica da humanidade, para com a humanidade, mas que dada a nossa natureza, talvez seja o principio do fim da nossa própria inteligência. Os sintomas manifestam-se à frente dos nossos olhos, mas preferimos, ou… escolhemos não ver. Não se sabe com todas as certezas o que é verdadeiro, ou o que é falso. O povo está dependente das redes sociais e das realidades virtuais que os mantém ocupados com o que não interessa, para que, o que interessa seja manipulado livremente enquanto o ganso está a engordar. Depois, que o mundo sempre esteve cheio de idiotas, e gente de mau carácter, sempre o soubemos, mas agora, as redes sociais vieram trazer um rosto e um nome a essa gente. Consola-me ao menos a ideia de que há mais gente boa do que má.
Para terminarmos numa nota positiva, da última vez que te dediquei um texto a assinalar a tua abrupta e trágica partida, contei aquela história do carro que bloqueou. Desta vez apetece-me lembrar a história da botija de gás. Ou melhor dizendo, da falta dela. Quando frequentávamos o curso de modelação de calçado em S. João da Madeira, alugamos um quarto que não tinha janelas. Na altura foi o que nos apareceu e acabamos por nos habituar sendo colegas de quarto pela duração dos dezassete meses que durou o curso. A nossa casa-de-banho, para tomarmos banho, ficava fora do quarto. Ou seja, tínhamos de sair da casa, descer umas doze escadas, se não estou em erro, que davam para as traseiras da casa onde numa pequena barraquita havia um chuveiro. Quando a botija do gás acabava, apesar das nossas constantes insistências com o nosso senhorio para repor a botija de gás, ele demorava sempre mais de uma semana para o fazer. Lembro-me que tomávamos banho em água fria, e como se isso não fosse suficientemente mau, nos dias de chuva, depois de uns valentes gritos, e de enchermos os pulmões de ar, como quem armazena coragem suficiente para se meter debaixo de um chuveiro de água fria, num dia de inverno, tínhamos de atravessar o quintal da casa, subir as doze escadas, de toalha enrolada na cintura, enquanto, muitas vezes, a chuva nos dava um outro banho até chegarmos ao quarto, a bater os dentes de frio.
Amigo Martins, teria muito mais noticias para contar, mas fico-me por aqui.
We miss you my friend.
António Magalhaes
