O Rali de Portugal vai ficar fora do calendário do Campeonato do Mundo de Ralis (WRC) de 2027, revelou esta semana o Automóvel Club de Portugal (ACP) em comunicado.
“Alteração de última hora força intervalo na presença de um dos mais emblemáticos ralis do campeonato do mundo, admitindo-se regresso em 2028”, pode ler-se na nota enviada pelo ACP.
O ACP revela ainda que, apesar de já haver data para o próximo ano, entre 13 e 16 de maio, “fruto de alterações feitas pelo promotor no último dia da preparação da próxima temporada do WRC, com o objetivo de a tornar geograficamente tão diversa e intercontinental quanto possível, o Vodafone Rally de Portugal foi uma das provas cuja calendarização foi afetada”.
O organismo acrescenta ter já mantido “as primeiras conversas entre o Automóvel Club de Portugal e o promotor do WRC tendentes à avaliação da possibilidade do Vodafone Rally de Portugal voltar a integrar o Mundial de Ralis em 2028”.
Realizado pela primeira vez em 1967, o Rali de Portugal integrou o WRC desde a sua criação, em 1973, ano em que foi a terceira prova do calendário.
Ao longo das décadas, afirmou-se como um dos eventos mais reconhecidos da modalidade, tendo sido eleito por cinco vezes como o melhor rali do mundo.
Entre 2002 e 2006 esteve ausente do WRC, regressando em 2007 com uma edição disputada no Algarve. Desde 2009, mantém-se de forma ininterrupta no calendário mundial, sob organização do ACP.
Presidente da Câmara de Fafe já reagiu
O presidente da Câmara de Fafe, Antero Barbosa, disse ter recebido com tristeza a notícia, argumentando que o Rali de Portugal e as provas em Fafe “fazem falta ao Campeonato do Mundo de Rali (WRC)”.
“Ainda não falei com os responsáveis, não sei bem os motivos e as causas que presidiram a esta alteração. O que eu desejo é que sejam envidados todos os esforços para que o possamos voltar a ter em 2028”, continuou Antero Barbosa.
Questionado sobre os efeitos da ausência da prova portuguesa do circuito mundial de ralis, o autarca afirmou que o “rali faz falta ao norte do país”, lembrando que nos dias da prova “confluíam ao território milhares de pessoas para assistir” e que “era uma aposta que o município fazia na dinamização da economia local”, situação de que “ficarão privados em 2027”.
“Temos outras provas, inclusive a contar para o Campeonato Europeu [de Ralis], mas, digamos, nada se sobrepõe ou nada substitui esta prova”, assinalou Antero Barbosa, que afirmou “não conseguir contabilizar” o volume de perdas em Fafe pela ausência do WRC na região, admitindo, todavia tratar-se de “uma perda grande para a economia local”.
Turismo Centro de Portugal fala em “murro no estômago”
O Turismo Centro de Portugal (TPC) lamentou a exclusão e exigiu explicações. “É um murro no estômago. Esta é uma notícia profundamente negativa para Portugal e que não pode ser recebida com normalidade”, considerou o presidente do TCP, Rui Ventura, salientando que a prova “é uma das grandes marcas internacionais do país, construída ao longo de décadas e reconhecida em todo o mundo”.
O ACP anunciou que a decisão resultou de uma alteração efetuada pelo promotor do WRC na fase final de preparação do calendário de 2027, com o objetivo de assegurar uma maior diversidade geográfica e uma dimensão mais intercontinental ao campeonato.
O presidente do TCP sublinhou o impacto económico e turístico associado à realização da prova na região Centro, sobretudo na “promoção externa de Portugal, na economia dos territórios, na hotelaria, na restauração, no comércio e no emprego”.
“São milhares de visitantes que acompanham a prova e milhões de pessoas em todo o mundo que conhecem Portugal através das imagens do rali”, frisou Rui Ventura.
Para a região Centro, “esta notícia é particularmente difícil de aceitar, já que existia um trabalho em curso para reforçar a presença do rali no nosso território, com Viseu a assumir um papel relevante, criando uma oportunidade excecional de promoção internacional e de retorno económico para toda a região”.
“É necessário perceber exatamente o que aconteceu. Como é possível que uma prova com este historial, esta notoriedade e este impacto fique de fora do calendário mundial? Que negociações foram realizadas? Que alternativas foram apresentadas? Que condições colocou o promotor? E, sobretudo, o que foi feito para defender até ao limite a presença de Portugal?”, questionou Rui Ventura.
O presidente da TCP realçou que poucos eventos desportivos realizados no país apresentam uma capacidade comparável de projetar Portugal internacionalmente e de gerar retorno direto nos territórios por onde passam.
Para Rui Ventura, em 2027 Portugal não perde apenas uma prova de automóveis, mas sim economia, dormidas, promoção internacional e “uma das grandes marcas de Portugal no mundo”.
O dirigente defendeu que o momento deve servir para esclarecer integralmente o processo e para preparar desde já o futuro da prova no calendário mundial, porque “uma marca internacional desta dimensão não pode entrar e sair do calendário como se nada estivesse em causa”.
“Agora é tempo de explicações e, sobretudo, de garantir que esta ausência não se transforma numa perda definitiva. O Rali de Portugal tem um valor demasiado importante para o turismo, para os territórios e para a imagem internacional do país para que esta decisão seja encarada com resignação”, sustentou.
Turismo do Porto e Norte exige explicação ao ACP
O presidente do Turismo do Porto e Norte de Portugal (TPNP), Luís Pedro Martins, exigiu explicações ao Automóvel Club de Portugal (ACP) sobre a saída do Rali de Portugal do Mundial de 2027, classificando-a como “um desastre”.
“A exclusão do Rali de Portugal do Mundial de 2027 não é um mero contratempo, é um desastre. Para as regiões do Norte e do Centro, berço histórico da prova e onde o Rali consolidou a sua identidade, esta decisão é um golpe direto na economia, no turismo e na nossa projeção internacional”, afirmou, em comunicado.
A entidade regional de turismo reclama a reversão da decisão e considera que a ausência da prova do calendário do Campeonato do Mundo de Ralis (WRC), anunciada hoje pelo ACP, representa “uma péssima notícia para os territórios do interior”.
“Como permitimos que uma das maiores marcas de Portugal seja descartada do calendário global? O que falhou?”, questionou Luís Pedro Martins.
O responsável sustentou que a possibilidade de regresso em 2028 não tranquiliza as entidades que têm investido na realização da prova, apontando os municípios, o Turismo de Portugal e as entidades regionais de turismo.
“A notícia de um possível regresso em 2028 em nada tranquiliza todos aqueles que ao longo dos anos investiram milhares de euros no Rali de Portugal”, declarou.
Luís Pedro Martins alertou ainda para as consequências da saída da prova para a atividade económica e o emprego, defendendo que a ausência não pode tornar-se definitiva.
“Perder o Rali é perder território, economia, emprego e prestígio. Exigimos saber do ACP o que falhou. Esta ausência não se pode tornar definitiva. O Norte não se conforma”, concluiu.
Federação Portuguesa de Automobilismo e Karting também não se conforma
O presidente da Federação Portuguesa de Automobilismo e Karting (FPAK) lamentou a “perda enorme para o automobilismo português”. “Não sei as razões que se prendem com esta decisão de não haver Rali de Portugal. Não deixo de lamentar porque é uma perda enorme para o automobilismo português”, afirmou Ni Amorim, em declarações à agência Lusa.
O presidente da FPAK ressalva, contudo, ter “a esperança de que o Rali regresse ao Mundial (WRC) em 2028”.
“É um rali com uma história brutal, considerado o maior rali do mundo anos seguidos, é indiscutivelmente o que tem mais público e o que os pilotos adoram. Acho muito mal isto que aconteceu”, sublinhou o dirigente máximo do automobilismo português.
Sem o Rali de Portugal no WRC em 2027, Portugal irá acolher uma prova do Mundial de todo-o-terreno (o Rally Raid Portugal, também organizado pelo Automóvel Club de Portugal), e uma do Mundial de Fórmula 1 (em Portimão). Haverá ainda uma prova da Taça do Mundo de todo-o-terreno, com a Baja de Portalegre (também do ACP).