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Assalto ao gabinete de Ventura terá sido mesmo a sério?

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O assunto tem sido tratado com muita seriedade. Houve alegadamente um assalto a um gabinete de um deputado, de André Ventura, presidente do Chega, e a Polícia Judiciária está a investigar. Até a Unidade de Contraterrorismo da PJ foi envolvida. O assunto é sério, portanto. É impensável que o gabinete de um líder político, de qualquer deputado ou funcionário parlamentar seja alvo de intrusos, roubado, espiado ou vandalizado.

O que é curioso é que todos aqueles que têm falado com contenção do alegado assalto, não conseguem esconder a ideia de que tudo pode não passar de mais uma cena de teatro. Agora, porém, é até a própria Polícia Judiciária que não descarta essa hipótese, segundo revela a revista Sábado. Mas manda a prudência que, até haver provas, o melhor é não fazer afirmações precipitadas.

A verdade é que este caso é estranho. Das duas uma: ou o intruso era descuidado e dado à desordem ou então queria mesmo dar nas vistas, porque havia papéis e outros objetos por todo o lado. Se o objetivo era levar documentos alegadamente sensíveis que comprometiam o Primeiro-ministro e o ministro da Administração Interna, como disse Ventura, então não era preciso deitar tudo para o chão largando papelada por toda a sala e até abrir a caixa da fotocopiadora.

Curiosamente, o presumível vândalo, deve ter tido problemas de consciência, uma vez que, no meio da desordem, quis deixar uma mensagem pessoal de respeito e devoção religiosa, colocando com muito critério um crucifixo agarrado à moldura com a foto de Nossa Senhora. É claro que tal cuidado no meio da confusão de papéis espalhados faz tudo parecer muito inverosímil.

Parecido com o ato de suposta vandalização do gabinete, só aquele momento único de Ventura em cima do palco durante a campanha presidencial a falar ao povo cheio de pensos, depois de ter deixado o hospital por causa de um refluxo gástrico. Ficou para a história a foto para as redes do líder acamado, com bata de hospital, olhar mortiço e polegar para cima, em modo like das redes sociais.

Tal como disse Trump quando foi vítima de uma bala que lhe roçou a orelha, também Ventura disse que foi o divino que o poupou para as suas cruzadas, mesmo que nelas ele se distinga essencialmente por espalhar o ódio contra os migrantes. Já no palco, sente uma pontada, como se estivesse a dar-lhe uma coisa e leva a mão ao peito (o estômago é mais abaixo) e curva-se com um ligeiro ar de sofrimento, mas recompõe-se logo e sossega os seus acólitos. Está tudo bem!

Portanto, poderá ser apenas mais uma cena de teatro, conveniente para deixar uma marca para ecoar ao longo das férias de verão. O que não deixa também de ser estranho, é que nem Ventura nem nenhum deputado ou dirigente falam do assunto, porque sempre que há um caso de criminalidade nunca se cansam de denunciar e agora todos se calam quando eles próprios são assaltados na sagrada Casa da Democracia. Nem sequer se referem com indignação ao facto de a Polícia Judiciária admitir que poderá ter havido encenação.

Vamos então ver o que isto dá. Para já, segundo relata a imprensa, a Polícia Judiciária, também na sua forma muito peculiar de comunicar, deixou no ar a ideia de que tudo pode não passar de uma encenação. O que não seria de estranhar, porque André Ventura funciona como se estivesse sempre em palco, realizando-se como um grande ator, embora muitos também o vejam como um grande pantomineiro. 

Mas, ao contrário do que é costume com Ventura e a sua gente, não se devem fazer julgamentos precipitados nem deixar insinuações maliciosas, mesmo que seja a própria Polícia Judiciária a deixar no ar a hipótese de ter havido encenação. Aguardemos, pois, as conclusões das investigações para podermos ajuizar se o caso que Ventura protagonizou é ou não para levar a sério e, acima de tudo, o que acontecerá depois.

Paulo Pisco

Esta publicação é da responsabilidade exclusiva do seu autor.

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