As quedas são um grave problema de saúde entre as pessoas mais velhas, tanto pelas lesões como pelo impacto na mobilidade, autonomia e confiança. Em 2023, o sistema EVITA registou 40 842 quedas que levaram pessoas com 65 ou mais anos ao Serviço de Urgência. Quase um terço envolveu pessoas com 85 ou mais anos, e cerca de dois terços ocorreram em casa.
Algumas quedas podem esconder uma perda de consciência. Embora sejam muitas vezes atribuídas a um tropeção, ao desequilíbrio ou à idade, quando não há uma explicação clara deve considerar-se a possibilidade de síncope. Reconhecê-la permite tratar a causa e prevenir novas quedas, fraturas e outras complicações graves. «Não sei como caí. Quando dei por mim, estava no chão.» Esta frase exige especial atenção: pode não ter ocorrido um simples escorregão, mas uma síncope — uma perda de consciência causada pela redução temporária do fluxo sanguíneo para o cérebro. Em geral, é breve e a recuperação é rápida.
Nas pessoas mais velhas, distinguir uma queda de uma síncope nem sempre é fácil. O episódio pode ocorrer sem testemunhas nem sinais prévios, e a pessoa pode não se lembrar dele. Por isso, afirmar «não desmaiei» não exclui uma síncope.

Reconstruir o que aconteceu. O primeiro passo é analisar cuidadosamente o episódio. Havia obstáculos ou o piso estava escorregadio? A pessoa tinha acabado de se levantar ou permanecera muito tempo de pé? Antes da queda, sentiu tonturas, visão escura, náuseas, suor frio ou palpitações? Caiu durante o esforço ou depois de parar? Recuperou rapidamente? As testemunhas podem referir palidez súbita, ausência de resposta ou uma queda brusca, sem tentativa de proteção. As lesões podem dar pistas, mas não revelam a causa: um traumatismo facial, por exemplo, pode acompanhar um colapso súbito.
A tensão arterial, o coração e as quedas. A síncope pode resultar de três mecanismos principais.
1) Síncope reflexa. Também designada neurocardiogénica ou vasovagal, ocorre quando o sistema nervoso autónomo reduz subitamente a tensão arterial e a frequência cardíaca. A consequente diminuição do fluxo sanguíneo cerebral provoca perda de consciência. Pode ser desencadeada por dor intensa, visão de sangue, calor excessivo ou permanência prolongada de pé.
2) Hipotensão ortostática. Ao levantar-se, a tensão arterial desce para níveis críticos, geralmente no espaço de 1 a 3 minutos ou menos. Pode resultar de desidratação, doença aguda ou medicamentos, como anti-hipertensores e diuréticos.
3) Causa cardíaca.Uma alteração do ritmo, como uma arritmia ou paragem cardíaca, pode causar síncope e representar maior risco. Perder a consciência durante o esforço ou quando se está deitado, sobretudo sem sinais prévios, exige avaliação urgente por suspeita de doença cardíaca grave. O mesmo se aplica quando existem dor no peito, falta de ar, palpitações anteriores ou doença cardíaca conhecida. Se a pessoa não recuperar depressa, respirar de forma anormal ou mantiver sintomas, deve ligar-se 112.
Prevenir a próxima queda. A prevenção não passa apenas por tornar a casa mais segura, embora esse aspeto seja essencial e muitas vezes esquecido. É igualmente importante identificar a causa da queda e rever a medicação. Fármacos que reduzem demasiado a tensão arterial ou a frequência cardíaca, provocam sonolência ou afetam o equilíbrio, como os sedativos, podem aumentar o risco. Esta revisão deve ser feita pelo médico, pois suspender tratamentos por iniciativa própria pode causar outros problemas. Também é importante levantar-se por etapas, manter uma hidratação adequada à situação clínica, fortalecer os músculos e o equilíbrio com exercícios apropriados, corrigir problemas de visão e adaptar a casa. Retirar tapetes soltos, melhorar a iluminação e instalar corrimãos e apoios em zonas críticas, como o percurso até à casa de banho, ajuda a prevenir acidentes e a preservar a autonomia.
Mensagem essencial: uma queda sem explicação não deve ser atribuída automaticamente à idade. É necessário identificar cedo a causa, avaliar os vários fatores de risco e adotar intervenções personalizadas, considerando a saúde física e cognitiva, o ambiente doméstico, o equilíbrio, a medicação e as doenças existentes.
Ovídio Costa
Texto inspirado no artigo de Mauricio Wajngarten, “Syncope or Fall? A Practical Risk Approach in Older Adults”, publicado no Medscape em 10 de setembro de 2026, e elaborado com o apoio do ChatGPT, Copilot e Gemini Notebook.
Fontes complementares
- Alves T, Silva S, Braz P, et al. Quedas em pessoas idosas em Portugal: uma abordagem epidemiológica a partir dos dados de 2023 do sistema EVITA. Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, 2024.
- Brignole M, Moya A, de Lange FJ, et al. 2018 ESC Guidelines for the diagnosis and management of syncope. Eur Heart J. 2018;39:1883–1948.
- Voigt RD, et al. Prognostic accuracy of syncope clinical prediction rules in older adults in the emergency department. JACEP Open. 2022;3.
- Prevenção e Intervenção na Queda do Adulto em Cuidados Hospitalares. https://normas.dgs.min-saude.pt/wp-content/uploads/2019/12/prevencao-e-intervencao-na-queda-do-adulto-em-cuidados-hospitalares.pdf
- NICE Guidelines (NG249 / Quality Standards). https://able-care.co/blog/nice-guidelines-falls-prevention-2025.
