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Estará Montenegro com Alzheimer, tão novo?

© LUSA

Luís Montenegro, na oposição, tinha respostas para tudo. Tinha urgência, exigências, soluções e o seu modo muito engraçado de as apresentar, a carregar na entoação e nos trejeitos, tão, mas tão bem ensaiados e tão mal interpretados, como se soubesse exactamente o que devia ser feito, sempre com o dedo apontado ao Governo de António Costa. Bastava chegar ao Governo para resolver aquilo que o Governo de então não conseguia resolver.

Em Setembro de 2022, perante a subida do custo de vida, exigia que o IVA da energia, da electricidade, do gás e dos combustíveis baixasse transitoriamente para 6%. Exigia-o com urgência e não aceitava desculpas nem adiamentos. “Que seja amanhã”, gesticulava, agitando-se Montenegro. “Faça-o agora, porque é agora que as pessoas precisam”. Na oposição, tinha a solução e havia sempre uma enorme urgência em aplicá-la.

Hoje é Montenegro quem governa e o discurso mudou. O IVA dos combustíveis não baixa, o custo de vida atinge valores nunca vistos e invoca calamitosamente as contas públicas, os equilíbrios orçamentais, os limites e as justificações para não fazer aquilo que exigia com tanta veemência. O homem que gritava “faça-o agora!” passou a dizer por que razão agora já não pode ser.

Francisco Rodrigues dos Santos, antigo líder do CDS, da sua família política – e é Rodrigues dos Santos quem o lembra – no Verdade e Consequência, da CNN Portugal, comparou a actuação de Montenegro com as medidas tomadas por António Costa em 2022 e considerou que o agora primeiro-ministro está a ficar aquém daquilo que então exigia. Numa frase resume a contradição: “As convicções de Montenegro não sobrevivem a uma coisa: a chegada ao poder, aí ele pensa radicalmente o contrário”.

Montenegro apresenta o seu partido e o seu Governo como humanistas. Fala de justiça social, de melhores salários, de melhores pensões e de protecção dos mais vulneráveis. Mas o humanismo não são as palavras usadas nos discursos. São as decisões tomadas perante as dificuldades concretas de quem vive com pouco e não tem margem para absorver aumentos sucessivos.

Os combustíveis são um exemplo evidente. O seu preço não fica apenas no depósito do automóvel: repercute-se nos transportes, na distribuição, na produção e no preço de muitos bens que chegam às famílias. Quem tem pouco sente esses aumentos de forma muito diferente de quem tem rendimentos elevados. É aí que o Governo que se diz humanista deveria concentrar a sua atenção.

A pergunta que Montenegro fazia a António Costa continua actual: onde está o “faça-o agora, porque é agora que as pessoas precisam”? A necessidade das pessoas não desapareceu com a mudança de Governo. Mudou apenas quem passou a ocupar a cadeira de primeiro-ministro.

Na oposição, Montenegro exigia. No Governo, verbera. Na oposição, apontava aquilo que faltava fazer. No Governo, enumera as razões para não fazer. Governar obriga a gerir recursos e a ponderar consequências, mas torna-se difícil ignorar a facilidade com que as certezas de ontem se transformaram nas cautelas de hoje.

Um Governo que se apresenta como humanista deveria começar por quem menos pode suportar os aumentos e procurar respostas concretas para aliviar os encargos que mais pesam sobre os rendimentos baixos. Não basta dizer aos portugueses por que razão aquilo que ontem era urgente hoje deixou de o ser.

As pessoas que precisavam de respostas “agora”, “já”, em 2022 continuam a precisar delas hoje. A diferença é que Montenegro já não está na oposição.

Mário Adão Magalhães

(Não pratico deliberadamente o chamado Acordo Ortográfico).

Esta publicação é da responsabilidade exclusiva do seu autor.

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