Uma equipa do Instituto de Investigação em Ciências da Vida e da Saúde (ICVS) da Escola de Medicina da Universidade do Minho publicou, na prestigiada revista Endocrine Reviews, uma revisão científica dos avanços mais recentes sobre os mecanismos cerebrais que regulam o comportamento alimentar, mostrando que estes sistemas funcionam como uma rede altamente interligada, e não como circuitos relativamente independentes.
Esta revisão ajuda a explicar o sucesso limitado de terapias dirigidas a um único alvo e aponta para o desenvolvimento de tratamentos combinatórios e de medicina de precisão, mais eficazes no combate às perturbações alimentares – como a obesidade, a anorexia nervosa ou a ingestão compulsiva –, que têm um elevado impacto social e económico.
A regulação do apetite vinha sendo explicada pela coexistência de dois sistemas relativamente independentes: um focado nas necessidades energéticas do organismo (homeostático) e outro associado ao prazer de comer e à recompensa (hedónico). Contudo, esta revisão – desenvolvida no âmbito do doutoramento de Jorge H. Fernandes – descreve reguladores recém-identificados e mecanismos pouco explorados, demonstrando que esta divisão é cada vez menos evidente, uma vez que ambos os sistemas comunicam e se influenciam mutuamente.
“O apetite resulta de uma rede altamente interligada, em que os sinais relacionados com a fome, a saciedade, o prazer e a recompensa convergem nos centros cerebrais que controlam a alimentação”, explica o investigador Jorge H. Fernandes. “Se um dos mecanismos for comprometido, esta interligação gera vias compensatórias que favorecem a ingestão alimentar, o que ajuda a explicar o sucesso limitado de terapias que atuam apenas sobre um único alvo.”
Além de reunir o conhecimento mais recente nesta área, o artigo discute de que forma alterações nestes mecanismos podem contribuir para doenças com elevado impacto na sociedade, como a obesidade, a anorexia nervosa e a perturbação de ingestão alimentar compulsiva. Esta perspetiva ajuda a compreender as limitações de vários tratamentos e aponta novos caminhos para o combate a doenças metabólicas e perturbações alimentares. Os autores sugerem que o futuro das terapias poderá passar por abordagens combinatórias – que atuem simultaneamente em diferentes circuitos cerebrais – e pela medicina de precisão, adaptada às características genéticas e moleculares de cada doente.
O trabalho do ICVS, liderado por Patrícia Maciel e Jorge Diogo da Silva, continua a explorar estes mecanismos em laboratório através do modelo biológico Caenorhabditis elegans, investigando especificamente o papel do processo de autofagia (degradação e reciclagem celular) na regulação do comportamento alimentar.