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Fomos da geração rasca, à rasca, indignados e enrascados. Agora somos “privilegiados”

© lusa

Fomos da geração “rasca”, da geração “à rasca”, dos “Indignados” e dos “Enrascados”. Agora somos os “privilegiados”. Em Portugal, parece que cada época precisa de inventar uma designação para classificar quem protesta, quem se revolta ou simplesmente quem não aceita ficar calado. Ao longo das últimas décadas, fomos recebendo rótulos, quase sempre atribuídos por quem preferia discutir a forma do protesto em vez de escutar as razões que o motivavam. Ontem éramos rasca, estávamos à rasca, éramos indignados ou vivíamos enrascados. Hoje, pelos vistos, somos privilegiados. A pergunta impõe-se: privilegiados em relação a quê?

Tenho 48 anos e atravessei praticamente todos estes momentos de contestação. Vi gerações diferentes saírem à rua, ocuparem praças, organizarem manifestações e enfrentarem governos de várias cores políticas. Cada uma tinha as suas razões, os seus protagonistas e a sua linguagem, mas todas partilhavam uma característica: a recusa em aceitar silenciosamente aquilo que consideravam injusto. Não pretendo fazer uma história exaustiva da contestação portuguesa, mas recordar alguns episódios que marcaram o período da minha vida e que ajudam a perceber como a vontade de protestar nunca pertenceu a uma única geração.

Nos anos 90, os estudantes deram corpo àquilo que ficaria conhecido como a Geração Rasca. Os protestos contra as políticas educativas, as provas globais e as propinas marcaram uma juventude que encontrou na rua uma forma de contestação. Em 1994, a imagem de estudantes que mostraram o rabo durante um protesto junto à Assembleia da República tornou-se um dos símbolos dessa revolta. Foi o jornalista Vicente Jorge Silva quem popularizou a expressão “Geração Rasca”, numa designação que rapidamente ultrapassou o episódio e passou a identificar uma juventude que muitos preferiam criticar em vez de ouvir. A polémica acabou por ficar na memória coletiva, mas as razões que levaram os estudantes a manifestar-se nem sempre receberam a mesma atenção.

No final da década, Portugal voltou a descobrir que a rua também podia ser um espaço de mobilização em torno de uma causa nacional. A violência que se seguiu ao referendo de 30 de agosto de 1999 em Timor-Leste provocou uma onda de solidariedade sem precedentes recentes. Milhares de portugueses manifestaram-se, exigiram uma resposta internacional e demonstraram que a mobilização popular podia ultrapassar fronteiras partidárias e ideológicas. Nessa altura, ninguém se lembrou de chamar privilegiados àqueles que saíram à rua para defender o povo timorense.

Em 2011, surgiu a Geração à Rasca. A 12 de março, milhares de pessoas manifestaram-se em várias cidades do país contra a precariedade, o desemprego, os baixos salários e a falta de perspetivas. O protesto aconteceu durante o Governo de José Sócrates e reuniu não apenas jovens, mas também pessoas de outras idades que se reviam na ausência de oportunidades e na dificuldade em construir uma vida com estabilidade. Pouco depois, o movimento dos Indignados, inspirado pelo 15-M espanhol, levou também pessoas para as praças e para o espaço público. Em Lisboa, o Rossio tornou-se um dos lugares dessa mobilização e da experiência de acampada que marcou aquele período. Eram cidadãos que queriam ser ouvidos e que procuravam novas formas de participação, para lá das estruturas partidárias tradicionais.

Seguiu-se o tempo da troika e da austeridade, já durante o Governo de Pedro Passos Coelho. Em 15 de setembro de 2012, o movimento “Que se Lixe a Troika! Queremos as Nossas Vidas!” levou centenas de milhares de pessoas às ruas, numa das maiores manifestações realizadas em Portugal desde o 25 de Abril. Não eram apenas jovens, nem apenas trabalhadores sindicalizados, nem militantes de partidos. Eram cidadãos de diferentes gerações, profissões e convicções que entendiam que as medidas tomadas estavam a ultrapassar os limites daquilo que consideravam aceitável. A contestação não tinha uma idade definida, nem uma filiação partidária obrigatória.

Também eu conheci essa realidade de perto, não apenas como observador. Quando fui presidente da Junta de Freguesia da Cruz Quebrada-Dafundo, durante o período de austeridade, lutei contra a intenção de retirar a carreira de autocarro 76 à população. Peguei num megafone, falei perante os habitantes e denunciei publicamente aquilo que estava em causa. A minha intervenção levou-me à esquadra, precisamente por aquilo que disse e pela forma como decidi dar voz à contestação. Mas a carreira 76 ainda existe e está lá, servindo os mais idosos.Não estava em causa uma disputa partidária, mas uma questão muito concreta: a população não queria perder um transporte de que precisava. E alguém tinha de o dizer em voz alta. Ser autarca também significava, naquele momento, não ficar sentado à espera que a decisão fosse tomada sem ouvir quem seria diretamente prejudicado.

Depois desses movimentos, houve quem procurasse transformar a indignação em participação política. Surgiram candidaturas independentes, movimentos de cidadãos e tentativas de levar para as instituições a energia que tinha estado nas ruas. Mas o caminho não foi simples. As exigências legais para a constituição de listas e a força das estruturas partidárias tornaram difícil a vida a quem pretendia entrar na política fora dos partidos tradicionais. O percurso de Fernando Nobre, que se apresentou como candidato independente à Presidência da República e acabou por integrar as listas do PSD, sendo depois indicado para a presidência da Assembleia da República, mostrou também como a passagem da sociedade civil para a política partidária pode ser complexa e controversa. A sua candidatura à presidência do Parlamento não conseguiu reunir os votos necessários e acabou por retirar-se. A vontade de renovar a política nem sempre encontrou nas instituições o espaço que muitos esperavam.

Mais tarde, os professores voltaram a mostrar que a contestação não pertence a uma idade nem a uma geração. As manifestações e greves contra o congelamento do tempo de serviço demonstraram que uma classe profissional inteira podia mobilizar-se durante anos para exigir aquilo que considerava justo. Foram precisos protestos, negociações e sucessivas decisões políticas até que, em 2024, fosse alcançado um acordo para a recuperação faseada dos seis anos, seis meses e 23 dias de serviço congelado. Também aqui se percebeu que a persistência da contestação pode obrigar os governos a regressar à mesa das negociações.

É por isso que me causa alguma perplexidade a facilidade com que hoje se distribuem rótulos a quem protesta. A Geração Rasca foi criticada, a Geração à Rasca foi acusada de não querer trabalhar, os Indignados foram muitas vezes tratados como sonhadores sem propostas e os Enrascados foram responsabilizados pela sua própria situação. Agora, os mesmos que atravessaram estas épocas parecem ser apresentados como privilegiados. Mudam os nomes, mudam os governos e mudam as circunstâncias, mas a tentação de desvalorizar quem protesta continua a ser a mesma.

Naturalmente, nem todas as reivindicações são justas, nem todas as manifestações têm razão em tudo, e protestar não significa ter automaticamente razão. Mas, numa democracia, o direito à contestação não é um favor concedido pelo Governo, muito menos um privilégio. É uma liberdade fundamental. Os políticos não podem esperar que os cidadãos se limitem a votar de quatro em quatro anos e permaneçam silenciosos durante o resto do mandato. A rua não substitui o Parlamento, mas também não pode ser tratada como um incómodo dispensável sempre que a população decide fazer ouvir a sua voz.

Fomos da geração “rasca”, da geração “à rasca”, dos “Indignados” e dos “Enrascados”. Já nos chamaram muita coisa, mas continuamos a ter voz. Tenho 48 anos e, pelos vistos, agora também pertenço à geração Boomer. Talvez amanhã inventem outra designação para quem não aceita que lhe digam que está tudo bem quando acredita que não está. Afinal, entre gerações, governos e crises, há uma coisa que permanece: a necessidade de exigir respostas a quem exerce o poder.

A História ensina-nos que cada geração encontra as suas razões para sair à rua. Umas protestaram pela educação, outras pela dignidade no trabalho, outras pela liberdade, pela justiça, pelos serviços públicos ou simplesmente pelo direito a uma vida melhor. Por isso, a pergunta que deixo aos políticos é simples: o que estavam à espera? Que todas estas gerações envelhecessem e perdessem a vontade de contestar? Que aqueles que um dia foram chamados rasca, à rasca, indignados ou enrascados aceitassem agora, sem questionar, ser tratados como privilegiados?

Em Portugal, cada geração teve o seu momento de acampada. E os políticos que não aprenderem a ouvir a rua arriscam-se a descobrir, uma vez mais, que a História não costuma pedir autorização para se repetir.

Paulo Freitas do Amaral

Esta publicação é da responsabilidade exclusiva do seu autor.

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