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Retalhos da vida de emigrante 

© Lusa

O Miguel tinha começado na escola. Era o princípio da sua luta. Todos nós tínhamos uma luta a travar neste país. A dele acabara de começar. Era o seu primeiro dia de escola, em Inglaterra, mas não era o seu primeiro dia de escola uma vez que fizera a primeira classe e parte da segunda, em Portugal. Mas era o princípio da sua luta porque teria de enfrentar uma classe de miúdos que iriam falar uma língua diferente daquela a que estava habituado. Isso a mim fazia-me uma confusão tremenda. Fazia-me sentir culpado. Fazia-me sentir um pai muito mau, porque por minha causa a família estava toda a enfrentar uma luta que não era a deles. Mas, se é certo que foi muito difícil a adaptação à sua nova realidade, provavelmente não foi assim tão difícil quanto eu a sentia por ele, que se adaptou mais depressa do que eu imaginara, ou mesmo esperava. Era com um enorme orgulho que de cada vez que íamos às reuniões de pais, as informações do professor, bem como do diretor da escola, eram as melhores. É claro que tive de perguntar ao Miguel, já em casa, longe dos olhares e dos ouvidos do professor.

– Mas afinal o que quer dizer outstanding? 

E mesmo depois da sua explicação, fui ao dicionário de Cambridge para perceber com grande satisfação que o puto era excelente na escola.

Quase três semanas depois de ter perdido o trabalho no takeaway, e de me terem dado o cartão que me garantia o meu ordenado semanal, arranjei um trabalho a entregar pizzas. Mas para isso precisava de carro. Com algum dinheiro que a minha princesa trouxera de Portugal, compramos o carro e eu comecei a trabalhar numa pizzaria a fazer entregas de pizza. Ignorei os conselhos que me deram, para continuar a ir receber o dinheiro do cartão, e ao mesmo tempo, o dinheiro da pizzaria.

– Não entregues já o cartão. Fica com ele mais umas semanas e ganhas a dois carrinhos.

Disse-me o meu conterrâneo quando nos voltamos a cruzar na cidade. Mas eu não estava disposto a esse tipo de habilidades. A minha responsabilidade agora era acrescida. No fundo eu tinha a consciência de que estávamos longe de casa, e mais importante ainda, que estávamos entregues a nós mesmos. Não me foi muito difícil pensar qual seria a melhor coisa a fazer. Fui ao mesmo sítio onde a senhora simpática e muito útil me tinha ajudado, e entreguei o cartão de volta. Agradeci-lhe do fundo do meu coração pela ajuda que me tinha dado.

– Mas agora tenho um trabalho, por isso, muitíssimo obrigada. Nunca a esquecerei. 

Talvez não me lembre já do seu rosto, mas lembro-me do seu gesto, e da sua amabilidade.

– Você é uma pessoa muito decente em ter vindo voluntariamente entregar o cartão.

Disse-me agradecida pelo meu gesto e sinceridade. 

Este trabalho como era numa pizzaria com franchise, eu pagava impostos, mas mesmo assim, depois dos descontos, trazia para casa quase o mesmo dinheiro que trazia com o cartão. No entanto, o meu objetivo era fazer parte da sociedade, ser um membro ativo e responsável dessa mesma sociedade.

– Não sabes como viver neste país.

Disse-me um outro conterrâneo quando eu lhe contei que devolvera o cartão. Mas eu tinha opinião diferente e por isso não me arrependi de fazer o que estava certo. 

Quando chegou a altura do João ir para a escola, foi mais um medo que todos tivemos de enfrentar. Mais uma luta, numa guerra que se vencia com a vitória de pequenas e grandes batalhas que iam surgindo no dia a dia. Ao contrário do Miguel, que tinha frequentado a escola primária em Portugal, o João como tinha apenas três anos e meio quando veio para Inglaterra, seria a primeira vez que iria frequentar a escola. Foi uma verdadeira angústia os primeiros dias. A mãe no primeiro dia, e parte do segundo, ficou com ele, para que se adaptasse. Para que, de certa maneira, se pudesse reduzir um pouco a sua aflição de ser deixado num lugar estranho para ele, com pessoas que falavam uma língua estranha, e que obviamente ele não percebia. Depois, os outros dias, deixava-o na escola escapulindo-se à sua primeira distração, para depois sofrer com ele na sua dor, ao vê-lo chorar, quando espreitava pelo cantinho da janela que dava para a sala, enquanto o miúdo olhava em seu redor, à procura da única pessoa que o poderia salvar daquele seu martírio, e que por motivos que ele não compreendia, o tinha abandonado ali à sua sorte. Era talvez por isso que a mãe sofria mais do que o filho. Que por vezes tinha a tentação de voltar à sala, pegar nele ao colo e trazê-lo para casa. Livrá-lo daquele sofrimento, que doía mais em nós, do que propriamente nele. Mas a batalha era precisamente resistir a essas tentações, e perceber que a vida é mesmo assim. Nascemos a chorar, e não nos livramos do choro e do sofrimento que ele, e por ele, nos causa, porque também é por ele que nos vamos fortalecendo. 

– Eu não quero mais ir para a escola.

Dizia o Joãozinho quando chegava a casa depois de mais um dia vencido.

– Não deve ser assim tão mau. O Miguel também vai para a escola e gosta.

Dizia-lhe eu.

– Eu não percebo nada do que aquela burra fala.

Obviamente que se referia à professora. Mas ela, que provavelmente não era a primeira vez que tinha de lidar com alunos que ali chegavam à sua classe sem saber uma palavra de inglês, fazia um excelente trabalho, no sentido de o envolver com a classe, até que o tempo fizesse o seu papel de maneira natural.  

O puto chorou todos os dias durante uma semana. Quando chegamos à sexta-feira de manhã, antes de ele sair para a escola com a mãe, eu disse-lhe.

– Bem…choraste a semana toda. Hoje é sexta-feira, não achas que já chega de choraminguices? 

Ele olhou para mim, e com um ar sério, convicto, tão sério e tão convicto que era de facto isso que me fazia rir, mesmo quando eu pretendia ficar sério, disse.

– Bem… hoje acho que ainda vou chorar um bocadinho. 

– Eu diria que já chega. O que te parece? Já chega não?

Ele pegou na sua pequena lancheira, rodou nos calcanhares, e antes de dar a mão à mãe, para mais um dia de batalha, virou a cabeça na minha direção e disse.

– Não. Tenho muita pena mas hoje ainda vou chorar. Para a semana logo se vê.

E eu fiquei a vê-lo, pequenino, guerreiro acima de tudo, de mão dada com a mãe, a outra mão a segurar a pequena lancheira, em direção à escola. E enquanto eles desapareciam para lá do portão, não pude deixar de dar um sorriso, apesar de sentir os olhos a humedecer, porque tinha consciência de que estávamos todos a lutar, à nossa maneira, a mesma luta, nas nossas vidas. 

António Magalhães

(Excerto do capítulo 9 de “Esta Pedra no Meu Sapato”)

Esta publicação é da responsabilidade exclusiva do seu autor.

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